abril 02, 2009

a mentira

A mentira é um instrumento de aperfeiçoamento no que diz respeito às relações humanas. Mente-se como motivo de ajustamento de carácter: transformar em qualidade aquilo que não passa de uma farsa, de uma burla, de um engano. É uma defesa. Um esconderijo. Mentir numa relação íntima é como se dividíssemos uma verdade: uma parte convém-nos; a outra parte convirá a quem tentamos iludir. São mentiras que nos salvam e cinicamente acreditamos que protegem aqueles com quem nos relacionamos. Mas não é fácil nem infalível manter esse compromisso com a mentira. A mentira tem propriedades que fere também aquele que mente. Agora no espaço público mentir é criar patamares de oportunidade – que significa essencialmente projectar nos outros uma virtude e um código que não possuímos publicamente, mas apenas na nossa natureza predadora, e dissimuladas no nosso carácter disfuncional.

Tudo é susceptível de alojar a mentira. No entanto, as relações que implicam cumplicidade afectiva, amorosa, são mais vulneráveis à mentira. Creio que isso tem a ver com o facto de não sabermos expressar-nos devidamente no que toca aos sentimentos e emoções. Às vezes mente-se por uma questão de impossibilidade em face da compreensão. É uma atitude involuntária em certos casos. Uma inocência contaminada em que as nossas acções encontram alguma segurança. Por exemplo: no acto sexual a mentira funciona como um estímulo do próprio sexo. Quero dizer com isto que durante uma relação sexual raramente se finge/mente que não se tem prazer e ou não se dá prazer. Neste caso estamos perante uma mentira afrodisíaca. Nem sempre o prazer merece a verdade.

A mentira faz um bom negócio com a verdade. E não defendo a mentira nas relações entre amigos, amantes ou casais. O que pode acontecer é colocarmo-nos negativamente na margem da verdade, tão próximos da mentira, que basta um pequeno desequilíbrio para nos convencermos que não estamos a ser sinceros. Tenta-se libertar da mentira quando a culpa se torna depressiva. Quanto às vantagens, e generalizando, a mentira só faz sentido e cumpre os seus propósitos quando os outros não se apercebem o que existe por trás da trama. Mas não estará a mentira tão enraizada na civilidade, que por esse motivo a verdade reclama para si todas as virtudes da natureza humana? Logo, a mentira é uma fraqueza da verdade que se demitiu das suas próprias regras.

Conclusão:

Compreendam: como é que as relações humanas, íntimas e sociais podem estar isentas da mentira se as nossas experiências com os outros trazem sempre novidade, afastamento e obsessão? Não será isso suficiente para que sejamos tentados a mudar as nossas atitudes e modos de vida mesmo recorrendo a pequenos artifícios aparentemente inofensivos e depois a esquemas onde compreendemos que a solução mais prática é a mentira? Mentir faz parte do nosso código de sobrevivência. É o antídoto para a nossa má formação social, mas com efeitos secundários que dita a nossa condenação perante a sociedade e a família. Imaginemos uma jovem e bela mulher, casada, que na boutique onde trabalha se sente fascinada por um cliente, também ele um homem casado, jovem e atraente. Este princípio de enamoramento, mútuo, não significará uma ameaça aos respectivos companheiros? Ela toma a liberdade, como boa vendedora, de sugerir-lhe determinadas peças de vestuário, cores e padrões. Ele concorda, sente-se agradado pela eficiência e pela atenção. No íntimo, não estará ela a exercer o seu poder de mulher, imaginando que está a cuidar do homem dos seus sonhos? E ele, não se sentirá maravilhosamente encantado por uma sensação que nunca havia experimentado? A partir daqui as mentiras são as linhas por onde a história dos dois se escreve. E para que a história entre eles prossiga tem de haver engano, simulação, desespero e sofrimento. Todas as belas histórias de amor nascem das ruínas e da mágoa de quem foi enganado.

Publicado por fernando esteves pinto em abril 2, 2009 10:36 AM | TrackBack
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