dezembro 26, 2008

para acabar com o ano

Ortega y Gasset dizia que o homem é o homem e a sua circunstância. Como este conceito me irrita e me condena. Estou farto da minha circunstância. Não me identifico com a realidade que os outros criam à minha volta. Sou sempre eu e as circunstâncias dos outros – normalmente pessoas com um fraco sentido da vida e afastados dos objectivos que mais ambiciono. Gostaria de sentir que eu sou eu e a circunstância de Bill Gates, por exemplo. É uma forma de me pensar com o sucesso dos outros. Não é inveja nem ressentimento. Desenganem-se. As circunstâncias são projectos livres. Mas também são projectos direccionados e estruturados de acordo com o destino de cada um. É um problema de vocação, creio. Mas eu não tenho vocação para circunstâncias atraentes, desejáveis e, como não dizê-lo, ambiciosas. Confesso: o meu sonho é ter a circunstância de Brad Pitt e engatar a Angelina Jolie. É uma irrealidade, eu sei, as nossas circunstâncias nunca hão-de lutar pela mesma mulher e muito menos permitir partilharmos o corpo dela. Mas quero que me percebam: as circunstâncias obrigam-nos a criar funções de fantasia que perturbam a nossa própria realidade. É um transtorno psíquico quando nos confrontamos com as nossas circunstâncias, conscientes do lugar que ocupamos em relação aos outros, e avaliamos os valores que correspondem a cada estilo de vida. O meu estilo de vida, então, parece que foi adquirido numa banca de saldos. A minha circunstância define-se em dois ou três prazeres cuja avaliação nem sequer faz muito sentido, tirando os dias que passo no estúdio do meu amigo Harry. Esses são os dias de maior glória. Também não sou um ingrato. Tenho as minhas compensações, sou capaz de identificar aquilo que valho independentemente da minha quota de circunstância. Não direi que isso me valoriza como pessoa, mas dá-me a ideia de como posso qualificar as minhas meditações sobre o assunto. E não concordo com a minha circunstância. Não creio que o fracasso das minhas experiências esteja intimamente ligado ao modo como funciono na vida. O fracasso e o descontentamento surgem no homem como acções colectivas. É tudo culpa dos outros, mesmo que o erro seja aquela ferida que começamos a sentir primeiro em nós. Por isso afirmo que a circunstância é um pacto de responsabilidades. E uma injustiça, insisto. Foi uma injustiça circunstancial o facto de Simone e Luciano terem-se conhecido. As circunstâncias deles já estavam num processo de rotura antes da decisão de viverem juntos. Luciano entrou numa fase de asfixia com a proximidade de Simone. Não houve uma sintonia. A atracção deu-se pelo lado errado, negativo, e depois o resultado foi a tragédia. Ninguém pode prever os malefícios da circunstância da outra pessoa. Mas como é possível avaliar a circunstância da desgraça em relação a duas pessoas? De que modo se poderá interpretar a questão da circunstância numa pauta de perdas e ganhos? O que é que faz constituir na circunstância essa função tão característica que traça a sorte que nos calha e que constrói toda uma estrutura de oportunidades inferiores aos outros? Tudo se deve à intensidade como aceitamos a nossa circunstância, e as variações que daí resultam fazem a diferença. Também não me convence. Penso que as circunstâncias são as pistas dum crime que não cometemos mas que ainda assim nos acusam da forma como vivemos. Muito bem. O objectivo da circunstância no homem é examinar as suas capacidades de integração no plano da existência e no desenvolvimento bem sucedido das suas opções. Nada mal, não fosse a minha circunstância discípula do desencanto. A circunstância não passa de uma teoria de valores onde somos julgados pelo que não controlamos.

in identidade e conflito (trecho de novo romance a concluir em 2009)

Publicado por fernando esteves pinto em dezembro 26, 2008 05:43 PM | TrackBack
Comentários
Pois é Fernando. Ortega não disse que não devemos lutar com as circunstâncias, é com essa luta que fabricamos o nosso caminho, mas o nosso poder de alterar as circunstâncias é pouco porque elas nos limitam os meios. Não és Bill Gates porque não és americano nem técnico de computadores, vives em portugal, tens a educação que te deram ou onde conseguiste chegar no meio que vivies. Seria aqui uma discussão interessante!... Um abraço. Afixado por: João Norte em janeiro 18, 2009 11:02 AM
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