julho 04, 2008

missal

A cena literária está a mudar. Alguns dos maiores escritores portugueses já têm o estatuto dos melhores jogadores de futebol. Tudo porque os grandes grupos editoriais se transformaram em gloriosos e dragões. A contratação dos escritores é inevitável. Vemos um Lobo Antunes a ser titular indiscutível na Leya. Um Saramago que, pela idade e pelo Nobel, assumirá inevitavelmente uma posição semelhante ao Eusébio no Benfica. Também não faltarão escritores de craveira inferior a serem dispensados ou transferidos para outras chancelas do mesmo grupo (ou para nenhumas). E outros que secam a pena no banco: um livro de cinco em cinco anos, (se tiverem sorte) como se jogassem os últimos minutos dum jogo. Quanto aos jovens escritores, o estágio (primeiro livro) não será garantia de continuidade. Muita habilidade e pouco lucro não rentabiliza a equipa. Os críticos (comentadores literários), cada vez mais tendenciosos, arbitram as tendências do mercado e exibem as regras da penalização ou do sucesso facilitado pela simpatia. E depois há aqueles escritores cuja literatura está sempre em campo (Margarida Rebelo pinto, Miguel Sousa Tavares, etc), com uma escrita toque de cabeça, exibicionista, histórias de calcanhar, joelho e peito a encher o universo, para leitores que também dão uma perninha no jogo da literatura; entram no campo sentimental das suas próprias perdas e ilusões, treinam cursos de escrita criativa na associação recreativa do bairro onde vivem; e é verdade: dedicam-se à ginástica mental e enchem folhas de papel com o perfume das suas vidas. O grande campeonato anual é transmitido durante a feira do livro de Lisboa. Uma luta pelo topo com os grandes grupos a exibirem o seu Estádio da Luz, ao lado das barraquinhas do escalão eternamente estacionado no limite da linha de despromoção e falência, a fazer lembrar casebres de ferramentas para jardinagem. E os livros fazem a decoração do pensamento nacional, qual bandeirinhas coloridas numa agitação histérica, manifestação de vaidade e balões a rebentar pela cabeça; filas para o autógrafo onde ninguém se lamenta da espera, porque não é todos os dias que se aperta a mão de quem nos escreve. Enquanto isto, os escritores da liga dos últimos entretêm-se a massajar o nervosismo e a impaciência, revirando nas mãos o livrinho independente, fazem flexões de consciência e chegam à conclusão de que por mais que tentem nunca entrarão no jogo. Chegará o dia em que Portugal terá o seu quarteto, com a literatura a aproximar-se do famoso trio analgésico e institucionalizado: Fátima, Futebol e Fado. A literatura já tem as suas Marizas e os seus Cristianos Ronaldos. Agora caminha para os seus objectivos de fé. Havemos de ter a Nossa Senhora do Jet-Set. O Santo Está em Todas. O Padreco das Micro-Larachas. Os poetas do Confessionário. Etc. Todos juntos na grandiosa Catedral editorial da Leya, onde uns se acomodam no púlpito com o sagrado pensamento preso nos lucros, enquanto os outros se ajoelham a escrever desesperados. Um dia muito próximo, ao folhearmos um catálogo da Leya, pensaremos: isto não é um catálogo. É um missal.

textos do biva

Publicado por fernando esteves pinto em julho 4, 2008 05:19 PM | TrackBack
Comentários

Mas vende!

ALídia Jorge, num dos seus romancs " no mercado literário actual o escremento tem prioridade"
Ela sabe o que diz.

Afixado por: João Norte em julho 7, 2008 03:58 PM
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