É a primeira vez que respondo a um inquérito desta natureza: os dez livros que não mudaram a minha vida. O convite partiu do José Carlos Barros. Da lista dele salvava o Jack Kerouac e o Norman Mailer, para os pôr à prova na tentativa de mudarem a minha vida. Já perceberam: ainda não os li. Os livros que não nos mudam são os que estão mais perto de nós. São livros que falharam nesse grande objectivo de mudança no leitor, e no entanto excederam-se na particularidade de o leitor continuar a ser quem é. Só os grandes livros podem não mudar a vida de quem os lê; isto no caso de encontrarmos nesses livros aquilo que já somos. Não acredito em livros que mudam vidas. Ou o livro é mau; ou o leitor é fraco. A mudança está associada ao fracasso que antecede a vontade de mudar, isto é, seja qual for o motivo que nos leva a querer mudar, a base é estruturada a partir do negativo. O leitor é que muda o livro de acordo com a sua capacidade de leitura e entendimento.
- “Cântico Final”, Vergílio Ferreira (roubei-o, e nem por isso me tornei um ladrão).
- “ Os cus de Judas”, António Lobo Antunes (encontrei-o no chão, molhado da chuva e esfarrapado. Li-o pela primeira vez sem saber o que estava a ler. Não me deu prazer nenhum. Nada mudou a esse respeito: continuo a lê-lo sem entusiasmo).
- “O Amante”, Marguerite Duras (confirmou aquilo que eu já sabia: se queres ser original escreve sobre a tua própria vida).
- “Quando o Inexorável”, António Ramos Rosa (a ideia que tenho dos meus primeiros poemas ainda me acompanha; e sugiro: se não sabes sobre o que escrever, não inventes. Complica).
- “O Livro do Riso e do Esquecimento”, Milan Kundera (a melhor estrutura dum romance é a memória).
- “O Complexo de Portnoy”, Philip Roth (apenas encontrei a personagem que havia em mim).
- “O Segredo de Joe Gould”, Joseph Mitchell (assustam-me vidas como a do Joe Gould. Continua a assustar-me vidas como a do Luiz Pacheco. É difícil vivermos no mesmo tempo).
- “Teatro Completo”, Sara Kane (continuo a não saber o que é a realidade).
- “A Luz em Agosto”, William Faulkner (o estilo é um acto de coragem. Quanto a mim, sobra-me em coragem e que me falta em estilo).
- “Bíblia Sagrada” (o Livro dos roubos. Vou lá buscar aquilo que é meu).
Que estranho reler uma série de vezes um livro sem nenhum entusiasmo.
Olá, (peço desculpa por ontem não o ter saudado), compreendo perfeitamente que não tenha entusiasmo pelo livro, eu tive dificuldade em conseguir acabar "A Explicação dos Pássaros", embora o tenha relido, mais que uma vez.
Cumprimentos e boas leituras.:)
Afixado por: lili em setembro 14, 2007 09:24 PMOlá, Fernando:)
Compreendo bem essa necessidade de te posicionares em relação à escrita, sobretudo porque tu próprio escreves, e à escrita do Lobo Antunes em particular: é um autor difícil, eu, por exemplo, não consigo ler um livro dele "de enfiada", como soi dizer-se, leio algumas páginas e tenho de parar, não sou capaz de manter a máxima concentação que a escrita de Lobo Antunes me exige e, já agora, aproveito para dizer que entusiasmo é uma palavra que dificilmente se pode associar aos livros do Lobo Antunes;).
Creio que o caos de que falas se refere ao provocado passado algum tempo de ler uma obra, e o modo como a vamos interiorizando, pensando e esquecendo - há uma altura em que temos de a reler tal é a confusão que sentimos ao recordar o que lemos.
Obrigada por teres lido algumas coisas no meu LiveJournal e gostado:)A minha escrita? - não sou de modo nenhum escritora, tenho até alguma dificuldade em escrever, por receio de me expor, e claro, por uma grande falta de talento; sou leitora, amo os livros e mais do que tudo a poesia. O escrita-ibérica já o conheço e visito há algum tempo, anteontem fi-lo porque um meu userfriend escreveu um post, sobre o mesmo assunto, mas, no caso dele, sobre os dez que mudaram a nossa vida, depois de ter lido o post e comentá-lo - http://innersmile.livejournal.com/-, lembrei-me de fazer uma pesquisa na net sobre o assunto e achei piada só ter encontrado o oposto: - "Os dez livros que não mudaram a minha vida"
Um abraço e vá dando notícias:)
Afixado por: Helena em setembro 15, 2007 12:59 PMbolas! mas afinal, a bem ver, esses livros mudaram-te a vida. caso contrário não dirias nada deles, não?
Afixado por: blimunda em setembro 24, 2007 09:02 AM