As posições sexuais adoptadas pelo casal são a definição infalível dos seus medos, carências e perversões. Num ambiente de amor profundo, quando a mulher se senta no colo do homem e se entrega como uma taça resplandecente que ele leva aos lábios do seu desejo para saborear avidamente o eterno prazer, supõe-se que a relação dos dois não sofre distúrbios de existência sexual. Esta posição da mulher sobre o homem é como um sol feminino a abraçar um horizonte. É um poder que a mulher exerce sobre o movimento masculinizado. É um equívoco do prazer científico. E ela sente-se como uma luz que retarda o fim da cópula, porque o seu corpo é uma paisagem espiritual onde o homem é limitado no seu instinto predador. Possuir uma mulher por trás é renunciar a sua identidade. O corpo de uma mulher sem rosto representa o corpo de todas as mulheres que se deseja. O eu é expulso da sexualidade; um eu marginalizado pela obsessão e pela pobreza do sexo. Esta posição não produz uma expressão sensual, nenhum olhar indicia um sinal de compensação. É um acto de destruição, como amar alguém à beira dum precipício. O que o homem possui na mulher é a exterioridade universal do seu abandono sexual. Não será a mulher a vertigem e o homem a queda? Deitar-se sobre o corpo duma mulher num acto de satisfação é como procurar os primórdios do nascimento. Há sempre uma atitude de desespero no sexo. A mulher é a mãe de todas as perdas. Ela amamenta os desejos do homem porque não o quer ver perder-se dentro de si. O seu corpo é o chão, a cama e a casa do homem, mas nunca será o seu útero. A interdição maternal que a mulher reservou ao homem é que a faz suportar o suplício ardentemente desejado por ele. O amor é um compromisso de enganos.
Publicado por fernando esteves pinto em dezembro 18, 2006 11:33 AM