O orgasmo é o instante em que o corpo dispara pela mente até se esgotar num abandono doce e leve. Os poetas possuem uma colecção de imagens para descrever as sensações do orgasmo, e mesmo que alguns sejam virgens, nunca fez mal a ninguém imaginar o que os outros sentem quando estão com uma mulher. A intensidade do orgasmo é variável, dependendo do ambiente sexual e do comportamento dos corpos na descoberta do prazer. A mentalidade dos amantes também regula a qualidade explosiva do acto sexual, embora a sofisticação não seja garantia de um bom resultado. Os poetas sabem que é insuficiente fazer uso dos seus encantos poéticos para que uma mulher se impressione, uma vez que o desempenho físico da mulher valerá as mil imagens que o poeta tem reservado para a sua obra intelectual. Quero dizer com isto que um casal de camponeses simplórios e analfabetos, silenciosos na fornicação e desajeitados na estética dos corpos, podem arrancar um orgasmo de fazer nascer água na lua; e essa seria, justamente, uma imagem que o poeta não desdenharia possuir para iniciar um poema da sua autoria. A vantagem dum poeta é a sua capacidade imaginária de transgredir as leis da realidade e sentir por palavras aquilo que os outros sentem apenas com o sexo. Enquanto o poeta dedica grande parte do seu tempo a pensar em nome da grandiosidade dos seus sentimentos (mesmo que ele nunca tenha experimentado algumas sensações, a poesia será sempre a sua enciclopédia existencial), os outros servem-se das suas imagens poéticas para exprimir emoções recheadas de fogo de artifício e frases populares. A mulher camponesa que não solta um gemido durante a cópula, imóvel na sua posição simples de receptora de prazeres silenciosos, e que concentra em si todo o fluxo jaculatório do companheiro, possui uma mente misteriosa onde guarda os segredos dos seus orgasmos e outras formas de poesia que o poeta procura desesperadamente em cada mulher que possui.
fernando
a "de fazer água na lua" é uma imagem espectacular e surpreendente. quando, no decorrer da leitura do texto, esperava, até pelo quase óbvio, "de fazer água na boca", a lembrar o «cunilingus» ou o «fellatio» aparece-me, de rompante aquela (im)possibilidade científica de nascer água na lua.
achei muito interessante a forma como descreves o artifício da linguagem para a criação de outra(s) realidade(s).