como posso chegar a ti se estás sempre em movimento?
os móveis ou a casa culpam as palavras
também os livros – esse que agora lês
não sei como as personagens suportam tanta invenção
vives por estes dias com o medo
de voltar ao pensamento
o cenário de uma tarde em plano destruído
o silêncio sobre os ombros
como eu odeio quando as palavras
chegam numa rede muito larga
não posso dizer todas as verdades
pensar é outra coisa e só o teu rosto fica como prova
só as tuas personagens são perfeitas e mesmo assim
dizem os seus dias esgotando a sabedoria de uma noite vulgar
e no entanto são escravas de alguém que pensa
leio certos livros como quem esquece de fechar uma porta
não sei se é assim tão fácil ignorar estas evidências
evito qualquer tipo de comparação quando
a ausência me apanha desprevenido
descobri que escrever é uma forma de te aproximar
uma manhã ainda adormecida num livro nunca lido
fujo de todas as certezas como das sombras exiladas nesta casa
tenho muitos pensamentos para tão profundas cedências
sabes o quanto é caótico representar a realidade
a agressividade de uma cama no meio do quarto
o espaço íntimo bruscamente ocupado
como nas cidades onde a paisagem sufoca de invasão
o desprezo de uma luz permanentemente artificial
sei que as palavras só por si não arrumam a tua vida
muito menos as memórias que se cansam do anonimato
de uma vida longamente infeliz
talvez abreviar o tempo seja uma condição
de tão impuras distâncias
como cortar caminho quando tudo parece perdido
a impossibilidade de enrolares as ruas nos teus passos civilizados
quando vais da sala ao quarto e tudo fica longe da verdade
canso-me de explicar o que permanece em acto de despedida
se escrever fosse um modo de viver clássico
e o tempo apenas consentisse duas palavras sobre a vida
é esta a ciência de um livro despedindo-se do meu pensamento
e ainda temos o ódio num imenso olhar nocturno
contagiando o que posso escrever sobre o assunto.
Muito bom...
Mas aproveito para dizer que gostei bastante do pequeno resumo sobre o que se passou em Cartaya.Eheheh!
Abraço.
Finalmente voltaste a escrever (escrita tua) o que sabes fazer muito bem.
Não posso deixar de fazer esta pergunta porque não entendi.
Que relação tens tu com o diário da " garota de programa?
Um abraço e bom Natal.
Afixado por: João Norte em dezembro 15, 2006 12:29 PM