dezembro 05, 2006

poesia debaixo dos pés

Cartaya. Luxo e poesia. Estava lá a velha guarda à mistura com a juventude anónima. Muita chuva e merda pelo caminho. De Espanha, nem bons ventos nem boa merda. O sul é a nossa porta para o conhecimento. Nas ruas de cartaya já é Natal. As luzes brilham esticadas nos arames como lingerie virgem. Os presentes caninos parecem folhas de Outono caídas da peida caduca dos cães de passeio. Os botins de verniz do Rui Costa carimbaram um desses excrementos arruaceiros. Foi vê-lo a esfregar a sola nas arestas polidas nas soleiras das portas numa ânsia de vã higiene. E de pouco lhe valeu uma poça de água da chuva à porta do teatro, onde ensaiou um sapateado tripeiro para diluir o cagalhão espanhol em massa castanha. Às tantas ainda sugeriu trocar de sapatos comigo, mas eu não fui na poesia. Mandei-o limpar o cu ao botim. O que ele fez, como se mudasse as fraldas aos pés. Dentro do teatro, quando chamaram o Rui Costa ao palco, lá o vimos na passadeira vermelha, poeta e renovado. Leu um poema de antologia, inédito, e dois poemas em castelhano. A marcar o ritmo da sua voz, batia com o pé encagalhado na alcatifa a disfarçar a finalização da limpeza. E depois, lá mais para o último verso, envolveu-se numa luta com o tripé do microfone para lhe transmitir os derradeiros resíduos caninos. A informação séria sobre o encontro segue nesta página do Sulscrito.

Publicado por fernando esteves pinto em dezembro 5, 2006 10:33 AM
Comentários

Eheheh! Um excelente resumo do que "realmente" se passou em Cartaya...
Abraço.

Afixado por: Miguel Godinho em dezembro 11, 2006 05:15 PM
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