dezembro 02, 2006

entrevista - amante profissional (8)

GAROTA DE PROGRAMA

A prostituição é uma arte? Agradecia que desenvolvesses esta ideia.

Talvez sim, talvez não, depende sempre do ponto de vista. Uma arte existe quando há um artista por trás dela que tem um dom, uma vocação ou um talento. E, infelizmente, a maior parte das pessoas que exercem a prostituição (raríssimas excepções), não o fazem pela arte, mas pela necessidade, por ser uma alternativa viável devido a ser um tipo de serviço que, ao ser oferecido, possui consumidores; não haveria prostituição se não houvesse clientela, se não houvesse um público-alvo para esse serviço. Ao contrário do que já foi antigamente, hoje a prostituição já não é algo considerado sagrado, hoje a ideia maior é de pecado, as prostitutas já não estudam para exercer essa prostituição, não são gueixas que possuem toda uma disciplina que conduzirá ao momento em que estiverem preparadas, e apesar do que algumas pessoas possam pensar, não vejo glamour nenhum em ser prostituta. Tem um lado muito bom, conheço pessoas maravilhosas, mas sempre que acontece algo que não me agrada, vejo essa falta de glamour, vejo que é o meu corpo que está ali, minha alma também, são eles a sentir essas emoções. Por outro lado, o trabalho que uma prostituta faz está ligado a vários tipos de artes. Às vezes, de acordo com a fantasia ou o desejo de um cliente, eu tenho que dançar, eu tenho que vestir outras roupas e interpretar novos personagens. Além disso, quando fazemos algo com empenho, este pode ser considerado uma arte. Eu venho tentando me empenhar, é algo de que gosto, adquiri aprendizagens, como a massagem, primeiros socorros, etc., motivada por isso. Leio sobre erotismo e psicologia não só porque gosto, como também porque me ajuda no meu trabalho. Quando tentamos criar algo novo, isso é uma arte. Uma arte não é apenas algo pronto, nem sempre é apenas algo estático que admiramos enquanto espectadores e enquanto plateia, é algo em desenvolvimento, é a procura do aprimoramento dessa mesma arte, é a liberdade para a criatividade, para o novo, para uma visão e um sentimento interno que se exibe externamente. Por isso, a prostituição pode ser considerada como uma arte, seja a arte do sexo, ou a arte da sedução, a arte da intimidade, ou seja o que for, se as pessoas, enquanto artistas ou enquanto espectadores a considerarem ou a respeitarem enquanto arte. Quando falamos de arte, há uma preocupação com a perfeição mesmo que esta não seja atingida, aliás, o grande prazer, acredito, é essa busca pela perfeição, é a criatividade que é manifestada nessa busca do perfeito, essa criatividade que sai de dentro de pensamentos e ideias mais íntimas. Eu não penso na perfeição, porque, na relação com o outro, eu não poderia ser perfeita se o envolvimento entre o “artista” e o “espectador” é tão próxima, e cada qual tem a sua forma de apreciação, as suas preferências. Mas comporto-me como o artista, que ao criar uma obra está a pensar em algo que mais pertence a si do que ao mundo, porque um artista só pode expressar algo que vem de dentro dele, e, no momento de criação ou no momento de exibição, o artista não é só o criador, como ele se torna também a sua própria arte.

fim.

Publicado por fernando esteves pinto em dezembro 2, 2006 08:04 AM
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