Como se houvesse outra voz nas palavras e outros actos a responsabilizar-se por ele, a atribuir a culpa a ela, a Rita ali caída no chão a olhar conformada e imbuída numa mistura de sangue e saliva e lágrimas, a aconchegar bem dentro da sua alma o postal descolorido da sua vida, sem esboçar uma única defesa, percebendo que o seu corpo estava a ser projectado numa dimensão primordial e absurda, que tudo na sua vida se desenrolava num plano caricatural, e no fundo tinha vontade de rir, porque já só reconheciam a máscara um do outro
queres foder-me
tudo se resumia ao corpo, o prazer transformava-se num espectáculo comovente, e a passagem deles pelo tempo doméstico, pelo martírio de se compreenderem meticulosamente, fracassava incontrolavelmente e decompunha-se a cada dia que passava
quero viver dentro de ti
e nada mais soava tão intenso e nada mais parecia tão verdadeiro do que este aviso do Jovem Ibsen, este grito ansioso que ecoava por todos os erros da sua vida, que alastrava sinistramente pela memória dos dois, folheando numa saudade de insulto a civilidade sentimental que exprimiam um pelo outro, vigiados pela obcecada depravação da realidade, a mulher e o homem a definharem no segredo do mais complexo labirinto espiritual, atulhados de incompreensão e imensamente descarnados de prazer
queres foder-me
como se dito assim cruelmente pela Rita fosse um bilhete fora de validade, um indício de identidade que lhe permitisse fazer uma paragem no tempo que se concentrava eroticamente à sua volta, uma barreira de acusação que demonstrasse ser infalível e lhe esvaziasse o sexo doentiamente compulsivo, a olhar para ele enquanto ele não olhava para ela, observou-lhe a tristeza e aquele instante suspenso que concentra todo o crime possível, esse sub-tempo inconscientemente humano, a meta a partir da qual tudo se tornaria numa obrigação feminina, uma violação a coberto da civilização familiar, de pernas abertas e adormecida em lágrimas e sémen, a esconder-se atrás do silêncio da mesma forma que se protegia da vida do Jovem Ibsen, sem escapatória, sem no entanto poder escapar ao estimável desejo, como se não pudesse ser possuída de outra maneira, o espectáculo seria despojado de todo o romantismo, absolutamente vicioso e transgressor
quero viver dentro de ti
o olhar insultuoso do Jovem Ibsen a afastar-se do corpo da Rita e pedaços luminosos da nossa senhora espalhados à volta, ela puxa o lençol da cama e arrasta-o para si, cobrindo os seios, a última representação amorosa chegava ao fim
o erro foi tu sentires que o amor é a ocupação interior de quem se ama
e o Jovem Ibsen a sentir-se apedrejado pelas palavras que ouvia, e depois como um animal a rodopiar sobre si mesmo, interior e exterior num movimento repulsivo, a controlar um vómito de desespero, aproximou-se da Rita e olhou-a nos olhos, olhou-a enjoativamente nos olhos e nada fora possível dizer-lhe, assim durante um tempo em que algo dentro dele se formalizava numa espécie de vazio, ainda tentou pegar-lhe nas mãos para recuperar do abismo, sacudir-lhe os braços e o corpo numa busca incessante de compreensão, mas nada recebia que suavizasse a sua alma, nada mais ouvia da boca da Rita senão a mesma acusação
nunca soubeste amar-me
Bom, parece-me que escuso de explicar porque é que isto é muito fraquinho. Em todo o caso, fá-lo-ei. É sempre giro.
Como é seu apanágio, o Pinto polvilhou o texto dos sempre elegantes advérbios de modo acabados em mente. Desta vez são nada mais nada menos que dez. Ena! Lá está o belo "sinistramente" e o novíssimo "eroticamente". A minha passagem favorita acaba por ser, contudo, esta: "o martírio de se compreenderem meticulosamente, fracassava incontrolavelmente". Bem bonito. O meticulosamente ali, quase às cavalitas do incontrolavelmente. Os desgraçados querem compreender-se meticulosamente - o que já não augura nada de bom - e depois ainda fracassam incontrolavelmente. Não vás aprender a escrever, não. É caso para dizer que o Pinto escreve parvamente, raciocina pirosamente e sente foleiramente.
Outras pérolas: "aconchegar bem dentro da sua alma o postal" parece-me um momento alto da literatura portuguesa do século XXI. Tudo o que seja aconchegar dentro da alma é lindo, e então quando se trata de um postal, mais belo é. Ainda ontem aconcheguei duas cartas e três faxes na alma.
Mais um grande momento: "olhou-a enjoativamente nos olhos". Cá está um novo advérbio acabado em mente. Desta vez, o Senhor Valéry (ou é o Senhor Juarroz? Ou é o Senhor Brecht? Ah, não. É o Senhor Ibsen. Onde é que ele terá ido buscar isto? Que imaginativo e original!) está a olhá-la enjoativamente. Sei bem o que é isso. Sempre que olho para os textos do Pinto, é enjoativamente... Agora vou deitar-me horizontalmente e tentar dormir calmamente. Espero conseguir bem sucedidamente!
quero mais. obrigado silva. vou tentar emendar esta forma de escrever. se soubesses como é importante para mim criticares estes textos. estás a ser um bom amigo. dorme bem, querido. e aconchega bem aconchegadamente ( lá estou eu) um caralhinho na tua boquinha inteligente.
Afixado por: fernando esteves pinto em agosto 28, 2005 10:40 AM"Um caralhinho"! Sim senhor, que nível. Já percebi que estou a conseguir irritar o Pinto. Ó Pinto, além do Senhor Ibsen, que foste buscar ao Gonçalo M. Tavares, à forma de introduzir o discurso directo no texto, que foste buscar ao Lobo Antunes, e às minúsculas, que foste buscar ao cummings, o que é que tens andado a copiar? Pela abundância de advérbios acabados em mente, algum decreto-lei, não?
Afixado por: Silva em agosto 28, 2005 10:44 AMCaritativamente falando, havia urgentemente que encontrar dose suficientemente abrangente de tolerância para que, paulatinamente, se fosse trazendo o escriba de volta ao tremendamente real peso da gravidade deste nosso mundo. Mas, naturalmente, não há pachorra para esta prosinha completamente recheada de profundamente significativos "ais".
Afixado por: ESFINGE em agosto 28, 2005 07:56 PM