Programa Sulscrito na Feira do Livro de faro
Data: 2 de Agosto
Autor: Paulo Kellerman
Livro: Silêncios entre Nós
Editora: Deriva
Data: 3 de Agosto
Autor: Pedro Afonso
Livro: Ainda Aqui Este Lugar
Editora: 4águas
Data: 4 de Agosto
Autor: Fernando Cabrita
Livro: O amor é um claro mês
Editora: Gente Singular
Data: 6 de Agosto
Ler Alto (leituras públicas)
Data: 7 de Agosto
Aproximando Margens/Acercando Orillas
Escritores Algarve – Andaluzia – Canárias
(António Manuel Venda, Fernando Esteves Pinto, Gabriel Cruz, Pedro Afonso, Quintin Cabrera e Uberto Stabile)
Data: 10 de Agosto
Lançamento do nº 2 da revista de literatura Sulscrito (Círculo Literário do Algarve)
Data: 11 de Agosto
Autor: Manuel A. Domingos
Livro: Mapa
Editora: Livrododia
Ele abre as portas de sombra numa estreita
aplicação de insustentável tristeza.
Não é o nocturno território da matéria urgente
que ele procura, mas o inocente nascimento
de um corpo longínquo.
Com a sua nobreza frágil e virgem
ele saboreia o fruto vivo de uma densa necessidade.
Berak iluntasunezko ateak irekitzen ditu ekintza zehatz batez
Tristura jasangaitzaz beteta
Ez da premiazko gaiaren gaueko eremua
Berak bilatzen duena, gorputz arrotz baten
Jaiotza errugabea baizik.
Noblezia hauskor eta birginalez dastatzen du
Behar trinko baten fruitu bizia
Tem o rosto leve de uma dança
e uma profunda inocência quando
flutua em torno da mesa. Nas suas mãos
uma porta se abre na puríssima lentidão
de uma nudez frágil.
Agora, permanece na interioridade de um tempo
residencial; áspero e monótono como a sua harmonia.
Ele é residência materna.
Íntimo e anónimo como uma casa.
E tão volumoso no seu repouso fértil.
Dantza baten aurpegi arina dauka
Eta inozentzia sakona, mahaiaren inguruan
Gorabeheretan dabilenean. Bere eskuetan ate bat irekitzen da
Biluztasun sotilaren gelditasun hauskorrez.
Orain denbora iraunkorraren barnean gelditzen da
latza eta monotonoa bere armonia bezalakoa.
Bera da amatasunaren egoitza
Intimoa eta anonimoa etxe baten antzera
Atseden emankorra bezain handia.
in ensaio entre portas, tradução de Itziar Rekalde
Nas Páginas dos Livros é um encontro literário em que os escritores participantes são convidados a permanecer durante uma semana em Vila Real de Sto. António para conhecer a cidade, sentir o ambiente e encontrar as personagens da história que depois terão de escrever. O encontro com os leitores será no dia 19 de Julho, no Centro Cultural António Aleixo, pelas 18h. Informação sobre os autores aqui.
Apanhado na rede: 6º livro da colecção Palavra Ibérica - Quarto com Ilhas, de Manuel Moya. Tradução de Rui Costa. Editora Livrododia.
REGRESSO A ÍTACA
Nem sequer tinha um abre-latas de vinte e cinco cêntimos
Raymond Chandler
Não é como anunciam nos folhetos,
as traves dificilmente se apoiam no muro,
as janelas estão de rastos.
No mar, com uns copos, não é tão tola.
Caminhas como um vazio pelas ruas
e o sol que te segue desde o céu
já não é mais que a pupila de uma pomba
brilhando no telhado.
Mas dobras as últimas esquinas.
Parece esta a tua casa,
o lugar onde ancoras e governas
a hemorragia que é viver
com um morto colado ao passaporte.
Passas a porta e já as traves
te assinalam um ponto além no céu.
O sol morreu. Na cama
aguarda-te o corpo falso de outro corpo
que outrora desejaste.
Manuel Moya
A cena literária está a mudar. Alguns dos maiores escritores portugueses já têm o estatuto dos melhores jogadores de futebol. Tudo porque os grandes grupos editoriais se transformaram em gloriosos e dragões. A contratação dos escritores é inevitável. Vemos um Lobo Antunes a ser titular indiscutível na Leya. Um Saramago que, pela idade e pelo Nobel, assumirá inevitavelmente uma posição semelhante ao Eusébio no Benfica. Também não faltarão escritores de craveira inferior a serem dispensados ou transferidos para outras chancelas do mesmo grupo (ou para nenhumas). E outros que secam a pena no banco: um livro de cinco em cinco anos, (se tiverem sorte) como se jogassem os últimos minutos dum jogo. Quanto aos jovens escritores, o estágio (primeiro livro) não será garantia de continuidade. Muita habilidade e pouco lucro não rentabiliza a equipa. Os críticos (comentadores literários), cada vez mais tendenciosos, arbitram as tendências do mercado e exibem as regras da penalização ou do sucesso facilitado pela simpatia. E depois há aqueles escritores cuja literatura está sempre em campo (Margarida Rebelo pinto, Miguel Sousa Tavares, etc), com uma escrita toque de cabeça, exibicionista, histórias de calcanhar, joelho e peito a encher o universo, para leitores que também dão uma perninha no jogo da literatura; entram no campo sentimental das suas próprias perdas e ilusões, treinam cursos de escrita criativa na associação recreativa do bairro onde vivem; e é verdade: dedicam-se à ginástica mental e enchem folhas de papel com o perfume das suas vidas. O grande campeonato anual é transmitido durante a feira do livro de Lisboa. Uma luta pelo topo com os grandes grupos a exibirem o seu Estádio da Luz, ao lado das barraquinhas do escalão eternamente estacionado no limite da linha de despromoção e falência, a fazer lembrar casebres de ferramentas para jardinagem. E os livros fazem a decoração do pensamento nacional, qual bandeirinhas coloridas numa agitação histérica, manifestação de vaidade e balões a rebentar pela cabeça; filas para o autógrafo onde ninguém se lamenta da espera, porque não é todos os dias que se aperta a mão de quem nos escreve. Enquanto isto, os escritores da liga dos últimos entretêm-se a massajar o nervosismo e a impaciência, revirando nas mãos o livrinho independente, fazem flexões de consciência e chegam à conclusão de que por mais que tentem nunca entrarão no jogo. Chegará o dia em que Portugal terá o seu quarteto, com a literatura a aproximar-se do famoso trio analgésico e institucionalizado: Fátima, Futebol e Fado. A literatura já tem as suas Marizas e os seus Cristianos Ronaldos. Agora caminha para os seus objectivos de fé. Havemos de ter a Nossa Senhora do Jet-Set. O Santo Está em Todas. O Padreco das Micro-Larachas. Os poetas do Confessionário. Etc. Todos juntos na grandiosa Catedral editorial da Leya, onde uns se acomodam no púlpito com o sagrado pensamento preso nos lucros, enquanto os outros se ajoelham a escrever desesperados. Um dia muito próximo, ao folhearmos um catálogo da Leya, pensaremos: isto não é um catálogo. É um missal.
textos do biva