maio 30, 2008

fuga

O importante seria escrever tudo aquilo que nos foge.
O que é fuga a todo o instante.

Publicado por fernando esteves pinto em 12:46 PM | Comentários (13) | TrackBack

maio 19, 2008

as minhas questões (2)

O romance e a poesia

A poesia e a ficção sempre estiveram muito ligadas no meu trabalho. Mas creio que comecei por sentir a poesia, até porque na minha infância era tudo muito poético: os ambientes em casa e a própria família. A pobreza e as dificuldades em que os meus pais viviam davam-me bons motivos para me sentir poeta. E eu transformei-me no cronista da vida deles. Observava tudo e escrevia sobre a família. Mas o romance é o meu campo de batalha, absolutamente.


Escrever

Quando me perguntam por que escrevo ou em que fase da minha vida me deixei tocar pela escrita, eu remeto a minha resposta para o meu primeiro romance “Conversas Terminais”, editado pela Campo das Letras. Tornei-me escritor quando os meus pais foram esfaqueados na própria casa e eu, interrogado pela polícia, tive de dar os dados de identificação dos meus pais e do agressor aos polícias e descrever as cenas que havia presenciado. Tinha nove anos de idade. Estive em risco de os perder. Felizmente não morreram. Está lá tudo, nesse primeiro romance. Este é um tema recorrente na minha escrita, com algumas variações. A psicologia e a vontade de escrever vêm daí –dessa fatídica madrugada onde tudo aconteceu. Como é fácil perceber, não estou na escrita por capricho ou vaidade. Estou na escrita porque quero manter a memória da vida dos outros.

Eu e a escrita

Como fugir do que escrevo? A escrita apanha o bom e o mau que existe em mim. Mas o “Conversas Terminais” foi um acerto de contas com a infância e adolescência. Foi um encontro em que o passado me pagou as suas dívidas. E assinámos um novo contrato para o futuro. Quanto ao “Sexo entre mentiras”, este livro quase destruiu a harmonia da minha vida. Às tantas, durante a escrita e mesmo na fase de diálogo com as personagens femininas do livro (reais), eu, o autor, também me transformei em personagem. Foi terrível. O livro é muito obsessivo no que diz respeito às questões do amor. É uma autópsia emocional das relações entre um homem e várias mulheres. E tudo sem anestesia.

Dramático

A realidade é que faz as suas opções sobre o humano. As pessoas são mesmo dramáticas. Mas tudo tem a ver com aquela cena da agressão. Foi dramático e isso ficou-me para sempre. E depois sempre detestei personagens de entretenimento, leves, vazias e fúteis. Temos de sentir o peso das personagens na nossa mente, e passar esse peso para o leitor, para ele avaliar a carga, a intensidade, de modo a confrontá-lo com a sua própria vida.

O sexo

As minhas personagens também têm direito às suas quecas, não é? Mas eu escrevo sobre o sexo numa perspectiva, quase diria, risível. Interessa-me esse lado menos perfeito numa relação sexual. Normalmente, as personagens desses dois romances falham nos seus desempenhos sexuais. E esta é a grande verdade na relação entre um homem e uma mulher: Admitir que o sexo é uma aprendizagem contínua. Não me interessa a pornografia gratuita, obsessiva. Mas também não posso disfarçar nos meus livros, ou ocultar como tema, aquilo que está presente de uma forma tão viva nas nossas vidas.

Influências

Sem dúvida, Vergílio Ferreira. Encontrei-o numa dessas barraquinhas de livros usados. Comprei um e roubei o “Cântico Final”. Foi um roubo cego, não me deu para ver que livro estava a roubar. Eu tinha catorze anos e não percebi nada do livro. Até julguei que fosse uma espécie de bíblia ou um livro escrito por Deus. Estive para voltar à barraquinha dos livros, deixá-lo lá em troca de outro livro roubado. Felizmente não fui. Vergílio Ferreira foi o meu guia existencial. E Philip Roth. Se eu alguma vez chegar aos 50% das suas capacidades literárias… bem… mas os editores também têm de crescer como bons leitores, senão nem com 100% se chega à edição.

Mercado editorial português

Sempre me senti apreensivo em relação a tudo o que sai da cabeça de quem decide. Eu incluído. Compreendo os motivos ou aquilo que move os interesses editoriais. A edição é um negócio e como tal tem as suas manhas. O editor parece ignorar que a comercialização de ideias e pensamentos, enfim, o livro no seu todo, faz com que o torne naquilo a que eu chamo de flacidez intelectual. Isso mesmo: a maioria dos editores são flácidos mentais, não têm coragem. As apostas deles são previsíveis; colam-se às figuras que estão vivas noutras áreas (televisão, espectáculo, etc), e o mercado editorial transforma-se numa passarela popular. Há excepções, claro, muito raramente, em que um autor desconhecido tem a possibilidade de pôr no mercado o seu primeiro livro. E se o livro não der lucro ao editor? O escritor é banido. E se o escritor até é mesmo interessante e tem uma atitude literária honesta? É banido na mesma. E agora o autor vai culpar quem da sua sorte? Culpa-se o editor ou culpa-se o leitor que não leu o livro e que procura na leitura somente aquilo que as revistas do coração e da má-língua são especialistas em oferecer? Isto é uma questão importante. O leitor também é culpado da situação a que chegou o mercado editorial: vai atrás da procissão mesmo não sabendo que santa ou santo é aquele. Houve alguém que disse: todo o editor tem o dever moral de apostar uma segunda vez num autor praticamente desconhecido e que não vendeu bem o seu primeiro livro. Concordo. Mas o dinheiro tem mais moral que as boas práticas.

Escritores e editores

Há muito bons escritores em Portugal e estão bem instalados. E há muito maus escritores a publicar nas melhores editoras. Mas quem é que dá o prestígio a quem? Fácil e evidente: os melhores escritores prestigiam a editora, que por sua vez prestigia a mediocridade dos autores mais fracos. Ma não podemos ignorar as editoras independentes. Chamamos-lhe assim porque são pequenas e movimentam-se à margem, com distribuição limitada, quase de porta em porta, etc. E muitas há que estão a fazer um bom trabalho e a lançar escritores interessantes.


Porquê Espanha

Tenho uma paixão por Espanha. Saí de casa aos vinte anos para umas férias em Málaga, sul de Espanha, com o intuito de ficar por lá. Estive só um mês e voltei. Acabei o resto das férias numa ilha em Olhão e construí toda a minha vida nesta cidade. Já lá vão vinte e sete anos. Portugal nunca me deu nada e ainda me tira tudo. Nunca tive um emprego compatível com as minhas capacidades profissionais. Sempre me senti subaproveitado. Eu vejo pessoas à frente da cultura que me fazem lembrar aqueles tipos muito certinhos e aprumados que se assustam constantemente quando interpelados por alguém que não conhecem. Só querem foguetes e corridinho. Quando encontramos esses tipos da cultura em saraus de croquete e palito a conversa deles é uma treta. É tudo muito simpatia e deixa-me da mão. Eu não tenho paciência e sou um tipo mau, malcriado, e dou a entender que não acredito nem um pouco nas palavras deles. Eu perco por não alinhar na ilusão que eles impõem; eles perdem porque nunca souberam ganhar. Eu sempre ganhei com a Espanha. Os escritores espanhóis têm outra abertura. Escolhi esta direcção. Gosto de trabalhar com eles. Se eu escrevesse correctamente em castelhano, editaria só em Espanha. Viver em Espanha? Estou tão perto deles. Eu vivo onde os meus livros são lidos.

Do futuro

O futuro será sempre um presente passado. Para mudar alguma coisa os autores terão de ter outra atitude. Impõe-se neste momento o confronto com os editores portugueses. Se somos nós, escritores, quem carregamos a arma; são os editores que fazem pontaria e dão o tiro, não é? Então cabe ao leitor pôr-se a salvo. Mas são os jovens autores com qualidade que mais quinam para o lado. E há os outros, também valores, jóias, copistas e apaixonados, gulosos. Esses são as luzinhas da festa, eu sei.

Publicado por fernando esteves pinto em 11:08 AM | Comentários (28) | TrackBack

maio 17, 2008

última hora

Hoje, sábado pelas 17h, tertúlia literária com o escritores Miguel real e Golgona Anghel, no Centro Cultural António Aleixo. Apareçam.

Publicado por fernando esteves pinto em 02:38 PM | Comentários (1) | TrackBack

feya do livro de lisboa

A Leya está para a feira do livro de Lisboa como as grandes superfícies estão para o comércio tradicional.

Publicado por fernando esteves pinto em 11:20 AM | Comentários (0) | TrackBack

maio 16, 2008

edita 2008

Apanhado na rede: galeria de imagens - EDITA 2008. Aqui

Publicado por fernando esteves pinto em 06:53 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 15, 2008

as minhas questões (1)

Ultimamente, o assunto sobre por que motivo se escreve tem andado pelas páginas de alguns blogues. Os comentários dos leitores, uns mais certeiros e outros ao lado, ilustram bem a complexidade do tema. Para contextualizar este depoimento, sugiro que visitem estes dois blogues: meia-noite… e insónia.

ESCREVER

É preciso compreender que a escrita é uma forma de nos defendermos. No meu caso, o que me levou à escrita foi o facto de eu observar nos outros à minha volta a dificuldade que sentiam em viver de acordo com a normalidade. Quando tudo está bem, nada nos desperta para a criação. Sempre tive uma particular atenção pelo pior que a vida nos pode dar. Comecei a escrever ainda criança, e o que eu observava de negativo nas pessoas era matéria mais que suficiente para transformar isso em escrita e a partir desse processo tentar perceber o ser humano. Esta era a minha forma de me defender da solidão e do sofrimento dos outros. Nasci numa casa sem livros. E isso marcou-me muito. Posso dizer que antes de ler livros, lia pessoas. Depois fui confirmando que pessoas e livros – estava tudo ligado. Lembro-me que os primeiros livros que li me incitaram a entrar no mundo da escrita. Estava assim criado o meu interesse pela literatura. Descobri que os livros eram lugares privilegiados onde eu podia arrumar pessoas e tudo o que as atormentava. Hoje sinto que pouca coisa mudou em relação a esta ideia. Continuo a escrever sob uma perspectiva da negação, isto é: o que me interessa no acto de escrever é descer fundo na vida dos outros e dar-lhes a ler o negativo das suas imagens e comportamentos em relação ao mundo em que vivem.

Curiosamente, comecei pela pintura. Gostava muito de pintar árvores e pessoas encostadas às paredes de casas arruinadas. As minhas árvores nunca tinham folhas nem ramos verdejantes. Eram simplesmente paus espetados, negros e agressivos. Tudo muito dramático para uma criança de dez anos. Também pintava rostos a espreitar dos ramos das árvores. Já nesse tempo se notava uma tendência em humanizar as minhas ideias no que se referia à criação. E muito naturalmente transportei as minhas preocupações temáticas da pintura para a escrita. Posso considerar que a minha poesia, os primeiros poemas, tomaram o lugar das minhas pinturas, gradualmente, até que fui deixando a pintura para me dedicar totalmente à escrita.

Há um pintor e um escritor. É uma personagem indissociável. No romance “Conversas Terminais” o personagem tem essas duas vertentes. Talvez seja uma obsessão minha. A verdade é que o pintor anda sempre à minha volta a pedir-me justificações por o ter abandonado. Mas eu continuo a pintar com palavras. Nunca esqueço a vida das minhas personagens.

ROMANCE E POESIA

A poesia é a respiração intensa. É a capacidade de sustermos a respiração quando mergulhamos em águas densas. Só se respira livremente e sentimo-nos salvos no fim do poema. É assim comigo. Escrevo um poema como se entrasse num espaço reduzido e moldado pelo meu pensamento. Não há margens por onde possa escapar. A escrita de poesia, como eu a entendo, ou como eu a pratico, exige-me que mergulhe debaixo dos escombros emocionais e retire somente aquilo que irá representar o mundo que me propus compreender. É como se tivesses de te alimentar com a tua própria fome. Eu não digo: vou escrever um poema. Como um suicida não revela: apetece-me suicidar. É-se convocado. O poema já existe, da mesma forma que o fim do suicida lhe está destinado. O acto poético consiste em procurar e descobrir o poema. Mas até para isso é preciso coragem.

O romance é uma espécie de baú da existência. Cabe lá a vida toda. Tudo o que é real e ficção. É um palco onde ponho os outros a representar. O romance é absolutamente o meu “espectáculo” preferido.

ESCRITA E CATARSE

Tenho um lema: quando não compreendes muito bem uma coisa, tenta escrever sobre ela. Faço isso muitas vezes. Mesmo aquilo que me incomoda emocionalmente é resolvido através do acto de escrever. A escrita arruma a vida e salva-a das inquietações a que está sujeita. Escrever cria espaços vazios na tua consciência e isso pode ser confortável, uma vez que o que fica escrito deixou de ocupar o teu pensamento e passou a pertencer a outro plano da tua consciência. É terrível a escrita colidir com a impossibilidade de escrever, isto é: seres incapaz de dar resposta àquilo que pede para ser escrito. Escrever é também uma forma de expulsão; dar lugar a outros pensamentos. Evitar o caos emocional, afectivo. Imagina teres alguém dentro de ti a respirar para sempre a tua própria respiração.

PSICOLOGIA

Cada pessoa é um tratado sobre psicologia. Interessa-me no ser humano aquilo que ele oculta, mais do que ele aparenta ser ou sentir. A minha posição em relação às pessoas situa-se nas suas próprias sombras. É no escuro que a luz é mais intensa. Essa é a minha zona – o profundo – onde está montada a maquinaria da existência humana. É nos bastidores do subconsciente que eu encontro todas as peças para a compreensão do outro. Interessa-me seguir o caminho que o outro não sabe percorrer. Interessa-me sentir o que o outro ainda não experimentou sentir. A minha escrita explora essas possibilidades. É como se fizesse uma autópsia ao pensamento do outro. Quanto a leituras do género, vou lendo o que me surge; as duas últimas foram “A Loucura da Normalidade” de Arno Gruen e “História do Suicídio” de Georges Minois.

OBSERVAÇÂO DO DIA A DIA E ROMANCE

Estou sempre atento. E quando nada me satisfaz, provoco. Lembro-me que quando era criança afastava-me propositadamente dos outros para os observar melhor. Esta atitude era já uma espécie de narrativa que eu estava a fazer do comportamento deles. A estrutura do grupo. Há também o silêncio na observação. O silêncio é a palavra-passe para o pré-conhecimento de alguém sem que haja o desconforto da incomodidade. Pôr o outro a falar de si sob o olhar vigilante do teu próprio silêncio. Ao contrário do que se possa pensar, é o silêncio que abre o ser e o expõe em toda a sua vulnerabilidade. As palavras mentem, subvertem, criam ficções; o silêncio é o diálogo interior, a interpretação que não se deixa tocar pelo medo que as palavras provocam a quem as ouve. A vida, o nosso dia-a-dia, é um romance cheio de personagens à espera de representação.

PERSONALIDADE E PERSONAGENS

Eu diria que coloco muito das minhas ideias na personalidade dos outros. É dessa forma que surgem as personagens dos meus livros. Não faria sentido se assim não fosse. Em tudo o que escrevo encontra-se sempre algo que me pertence. A minha função é humanizar uma personagem com aquilo que me é dado pelos outros. Também acontece eu ser personagem por responsabilidade e por inevitavelmente me sentir colado à personagem que crio. Não houve alguém que disse que o homem é a máquina que constrói? Muito bem: eu sou os livros que escrevo.

Publicado por fernando esteves pinto em 06:23 PM | Comentários (2) | TrackBack

maio 14, 2008

imagens

Apanhado na rede: o balanço da noite feito pelo editor da 4águas, Vitor Cardeira. Aqui na Quinta Cativa.

Publicado por fernando esteves pinto em 06:51 PM | Comentários (1) | TrackBack

boa noite

Apanhado na rede: jantar de despedida (Valdir Rodrigues) e poesia no Chalé de Bela Mandil. O filme.

Publicado por fernando esteves pinto em 05:46 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 12, 2008

amadeu baptista - prémio internacional de poesia palavra ibérica

Dia 13 de Maio pelas 11h00, na Casa da Câmara na Praça Marquês de Pombal, Amadeu Baptista irá receber oficialmente o Prémio Internacional de Poesia Palavra Ibérica 2008, numa cerimónia integrada nas Comemorações da Fundação de Vila Real de Santo António. Lá estaremos para apoiar o poeta.

Publicado por fernando esteves pinto em 05:14 PM | Comentários (0) | TrackBack

maio 05, 2008

ambientes

Apanhado na rede: Uberto Stabile (director do EDITA); Rodrigo Miragaia, Sara Rocio e Maria João Lopes Fernandes (BIG ODE); Vítor Vicente (CANTO ESCURO). Aqui.

Publicado por fernando esteves pinto em 04:22 PM | Comentários (5) | TrackBack