Tinha um singular respeito pela mulher e família que mentia à amante dizendo-lhe que nunca fora casado.
Uma mulher bela, cabelos desgrenhados e com uma alça do soutien descaída no ombro transmite-nos a imagem de alguém que cultiva a sensualidade, mas se for feia não passa de uma desleixada.
Vendo poemas de amor, engano e desencanto. Dor de corno, emoção e paixão. Com ou sem sentimentos, poemas aldrabões, fingidos e comediantes. Ao verso é mais em conta, frase intensa com bom efeito. Poemas completos, combativos, traiçoeiros e muitos afectos. Poemas para tipos desesperados, raparigas mal paradas, mulheres casadas, picuinhas divorciados, caprichosas e complexadas, trintões desorientados.
Vendo poemas ilustrados, com cenário, botânica, muita ave rara, aviário e plumagem, pôr-do-sol e estrelas do outro lado. Com beijos e marmelada, suspiros e afrontamentos, lágrimas, desmaios e francamente.
Versos simples e directos, palavras pesadas ao sentimento, metáfora polida pelo coração, mensagem bem iluminada e com pontuação.
Vendo sonetos, mais sofisticado, grandes voos e sensação, palavras encomendadas ao dicionário, imagens de tirar a respiração, conselhos nas entrelinhas incluídos no preço.
Vendo poemas abstractos, frase descalça a pedir atenção, tanto faz ler do meio para trás, indicado para tansos e mal formados, pouco exigentes e volta e meia enganados.
Vendo poemas a mulheres enjeitadas, feias, masculinizadas e com tara, com palavras repetidas e obsessão, ordem, vingança e imposição.
Vendo aforismos engraçados a clientes apressados, fúteis, e do mundo apartados. Também os vendo profundos, certos ou errados, actuais ou ultrapassados, de acordo com objectivos e nunca com resultados.
Vendo poemas de esperança a raparigas solteiras, lar, mobília e príncipe encantado. Poética descritiva, maravilhas, conto de fadas e muita filhada. Para fartas e cansadas tenho micro-narrativas, primeira frase a acabar na última, económico nos pormenores mas vasto na intriga e na lição.
Vendo frases isoladas, não muito chatas, rapidinhas e eficazes para quem ama e não é amado. Tenho colecção de poemas para levianas, paisagem nocturna, cama desfeita, anatomia, chicote, gemidos e gargarejo. Palavras proibidas e prolongada satisfação.
Tenho ficções negras, capítulos inteiros para clientes sinistros, violentos e sem arrependimento, trolhas, vadios e nojentos. Histórias de lingerie, silicone e preservativo, para miúdas tontas, acrobatas e perdidas.
Vendo receitas amorosas, menu personalizado, muito sumo, muita fruta, tentação vocabular, frases espirituais, suspense, sais coloridos, significados arco-íris, metáfora extraordinária e final com sobremesa requintada.
Vendo poemas com rima, pobre ou enriquecida, conforme a posição, responsabilidade por conta do infeliz. Sugestão de palavras sem limitação, escandalosas ou bem comportadas, oriundas da escumalha ou afeitas a ambientes de salão.
Vendo quadras populares, sociais, comprometidas, políticas e apimentadas. Ideias vadias, verdades miraculosas, dão sempre resultado quando a compreensão não enguiça.
Vendo ensaios à medida, existencialistas ou de diversão, a estudantes, advogados e engenheiros. Prosa técnica e caprichosa, assuntos afinados com a ocasião, posfácio impressionista com assinatura realista.
Escrevo diálogos adaptados de casos pessoais, pedidos de casamento, charadas originais, úteis para gagos e malta condicionada, envergonhados, desencorajados e com défice de tino e emoção.
Vendo letras de canção, festival de inocentes, coisas sérias e refrão, trauteares versificados, avisos e recados bem pensados.
Tenho catálogo de farsas, muitas ficções, postais da alma ilustrados, máximas que nem sempre o são. Vendo ditados inspirados, para quem se submete à solidão, improvisos bem cuidados e cópias escritas à mão. Faço manutenções à inspiração, acerto detalhes de alma atrapalhada, enfeito qualquer voz de palavreado e encho de glória tudo o que é ilusão.
textos de biva
Cumprida a 3ª edição do encontro de escritores hispano-lusos Palavra Ibérica, Punta Umbría. Destaco o diálogo ininterrupto entre os participantes do encontro: futuros contactos e projectos garantidos. Interessante, também, foi a intervenção de José Mário Silva sobre o tema “Outros tempos para a lírica”. Tema que tinha matéria para ocupar um só encontro: onde está a poética do quotidiano nos nossos dias? José Mário Silva leu-nos um texto baseado num episódio pessoal, parado no trânsito ao volante do seu carro numa cidade (Lisboa), em que a poesia andava por ali a esvoaçar sem ninguém dar por isso. Não são poetas, têm desculpa. Culpam-se os poetas por um verso perdido e aos outros desculpa-se a ignorância de toda a poesia.
Contei uma mentira ao Manuel A. Domingos. Bukowski estava uma noite num bar encostado ao balcão a beber um copo. Uma mulher aproximou-se dele e convidou-o a sentar-se numa mesa. Disse-lhe Bukowski: gosto muito de beber um copo mas não tenho jeito para “entornar” conversa. A mulher insistiu, claro. E o poeta disse um poema sem querer: aonde fica a cama mais próxima?
No quarto de hotel, quando me preparava para dormir quatro horas, o Bukowski de Manteigas bateu à porta. É terrível, este tipo. Fomos parar ao quarto dos Sulscritos. O Pedro Afonso enfiado dentro do guarda-fatos com brincos de perchas pendurados nos óculos. O João Bentes a ensaiar a sua poética e o Miguel Godinho metafísico e profundo na sua insónia. Manuel Domingos fez a reportagem fotográfica.
No Gran Café Nexo leram-se poemas e ouviram-se boas vozes: Diana Almeida (vou contratá-la), Golgona Anghel e Manuel Domingos (aqui defendo o que me diz respeito). Momento alto foi a leitura de António Orihuela.
Tiago Nené, um jovem poeta de Faro (como eu gosto de referir) levou a noite quase toda a tentar ensinar-me a escrever um romance. Sou capaz de lhe fazer a vontade e seguir os seus conselhos: o meu próximo livro seguirá a linha de Paulo Coelho. Assunto: Quando me olho ao espelho só me vejo a mim. Título: Fernando Esteves Pinto decide deixar de escrever.
Sentado ao balcão no Gran Café Nexo… não era o Bukowski… Luís Filipe Cristóvão pensava numa maneira de beber a última cerveja da noite sem ir ao bolso (já não tinha moedas). Não fosse ele editor e livreiro, e sobretudo poeta, assina logo ali um contrato de edição líquida com o barman por um período que leva a beber um copo. Fui testemunha mas não molhei o bico. Proposta do Cristóvão: uma assinatura com dedicatória em troca de uma taça de cerveja. “Pequeña Antologia para el Cuerpo” ganhava assim mais um leitor e lugar de destaque na biblioteca dos poetas da casa.
Manuela Ribeiro, convidada especial do Palavra Ibérica, contou-nos algumas histórias do Correntes D`Escritas. Histórias criadas pela afectividade e emoção dos participantes desde o 1º ano. É também assim que queremos escrever a história do Palavra Ibérica na vida dos nossos autores convidados. Como dizia o José Mário Silva: “ninguém ligava à imagem bela dos estorninhos”. Deixa lá, o espectáculo agora dá-nos outros motivos para a poesia. Mas nós, poetas, continuamos a dar importância a essa palavra que voa e escreve livre.
Nota: estejam atentos a este blogue, onde poderão ver alguns filmes do encontro. Realização e montagem de Adão Contreiras.