Quando o esquecido lume reacende a chama
num repente de ventos...
9636007...: não estás.
nove seis três seis zero
zero sete...: não estás e se porventura estás
respondes que ontem...
Vê-se que nunca viste este domingo:
o murmúrio das pinhas a abrir
uma sandália a ficar na babugem
a claridade jade dos pássaros...
O Valagão não mais terá tantos banhos
pois a Mariana...
Estás de ressaca
o banquete é apenas nosso;
só te resta a memória desta ilha
e uma garina alemã...
poema de rui dias simão - in hipantropias
A progressão aquática da virgula descalça o
náufrago - olhos de dezembro
na miopia das areias rastejantes, é assim
o recomeço de todas as linguagens.
A árvore o barco a quilha da vicissitude
aquática
o mimetismo da espuma no núcleo
da sombra
quem espreita pela fechadura de deus?
eis um resultado nómada.
40 braços do que pensas enquanto
o sonho levanta uma heresia?
A progressão aquática da vírgula
descalça o náufrago.
poema de rui dias simão - in hipantropias
À sombra da laranjeira
não bebendo a flor mas
o músculo exacto da água...
Acesa a gramática da janela do olhar
os lábios desfiando o barco das carências...
Com o mar nos arredores
duma mão à minha escolha...
poema de rui dias simão - in hipantropias
TRAVESSIA
Apenas um remo
outro rima.
PUZZLE
Dissuadir a mente da nuvem
pôr o corpo na ilha
viver a volúpia com arte de gaivota
e afastar depois a Terra e juntar.
poemas de rui dias simão - in hipantropias
a. Com o barco ancorado
entre sí-la-bas
Poeta de malas aviadas
aonde vais?
Lapidar os ossos no cais!
x. O barco.
O barco como um cavalo ou um barco
sob a fragrância da surdez do sol.
Apenas o barco. Como um cavalo
ou um barco.
z. Sou o óbvio cavalo óbvio
que galopa a composição aérea do levante.
poema de rui dias simão - in hipantropias
O boletim meteorológico
diz que as ondas
vão comer os pobres...
As ondas dizem que
os pobres vão comer
o boletim meteorológico...
Os pobres dizem que
o boletim meteorológico
vai comer as ondas...
Pesa tanto a raiz
do que se diz...
poema de rui dias simão - in hipantropias
Dia 8 às 21h o Sulscrito estará no Cafe Del Arte em Huelva para uma apresentação de poesia de autores do Algarve e da revista de literatura Sulscrito. José Bívar fará também uma apresentação do projecto Aliança Cultural.
1.
Uma linguagem de súbito imperceptível:
O desenho de uma palavra persegue o tecido frágil da pele.
Inaugura o momento cúmplice.
O corpo respira, atinge o silêncio,
Imóvel sob os dedos.
2.
O pensamento é um rio orgânico.
Uma língua cerebral onde as palavras
Abrem o caminho para o limiar da memória,
Para a longínqua claridade das formas.
Um fogo de vozes no centro do próprio corpo.
3.
O silêncio comunica com as imagens os sinais
Do corpo na pele de outras palavras.
Escrevo de fora do corpo
No deserto do fogo tão necessário
Ao destino das águas.
Uma luz interminável conduz a mente
Até à infecção do poema.
4.
Sob o fogo esta boca de luz vegetal.
A possibilidade da água reviver
O espaço inominável da sede.
Percorrer a superfície lenta do poema
Como se em cada palavra existisse
Uma substância viva
Uma pulsação real.
5.
Uma palavra amanhecendo dentro do peito.
As palavras que partem para o infinito
Descrevendo um movimento de luz.
6.
Como se fosse um fruto:
Abrir o rosto da manhã.
Fazer a divisão do pensamento.
A imagem fictícia do poema. Do corpo.
in poemas recuperados