A revista sulscrito representada num encontro de revistas de literatura no México. Na foto, Arturo Accio, poeta e colaborador do Sulscrito.
Senhor Costa, é verdade que a imitação não é nenhuma virtude no meio literário. Porém, sendo a sua postura tão grave e calona, aconselho-o a devolver essa sombra profética ao velho Alcides. Ele sabe aonde colocar as ratoeiras de estilo e evitar que a indignação vire folha de faca com dois gumes. Quando se fala de literatura a arena enche-se de farpas e capotes, cavalos e cavaleiras. O boi é crítico: investe no desafio e acaba no matadouro. Mas há sempre alguém que lhe puxa pelo rabo, derrapa duas voltas em sapatinhos de ballet e afasta-se em pose de quem ganhou mais um prémio. Os aficionados aplaudem a obra taurina, pedem bis e autógrafos, lançam elogios e bijutarias; o director da corrida, esse editor bandarilheiro, sopra na corneta para mais uma edição.
E a festa da literatura continua. Não é rija porque a prosa é mole. Se for portuguesa, ainda pior. Despidos do traje da vaidade intelectual, os escritores só então percebem que as luzes do espectáculo têm a modéstia potência que lhes assistem nas suas habilidades criativas. Antes, porém, não compreendem que o silêncio, o deles, é um favor que prestam. Como não entendem que a humildade, se for genética, é o melhor capítulo da vida deles.
Conheço escritores para todos os gostos e desilusões: os que passam o tempo a palitar o pensamento em busca da tal metáfora associada ao pastelinho de bacalhau. Os que velam pelas relíquias dos poetas mortos, angustiados que se sentem no arranjo de uma palavra que lhes escapa para a composição dum verso mumificado. Os que mergulham na escrita com colete de salvação e bóia de sinalização a avisar cuidado aqui está um cérebro a meter água. Os que ofendem o tempo dos seus leitores com charadas linguísticas e miniaturas reflexivas; estes são escritores cuja simpatia encarece a amizade dos que formam o círculo da vida deles, são personalidades obscurecidas pela interioridade luminosa dos seus pensamentos; pessoas afectadas: nem pavão nem plumagem; suicidas simulados, escrevem pelo prazer mórbido de saberem quem são aqueles que os acompanham no funerário aborrecimento dos seus próximos livros.
Conheço os que amam as palavras e a natureza. Quando têm ideias, deixam-nas morrer de sede. Dedicam-se ao comércio das influências. A tabela dos seus princípios vale ainda menos do que são capazes de escrever. Conheço-os atormentados pelo sucesso alheio. Vivem isolados desde o nascimento. Não ignoram o valor da amizade e, já agora, também reconhecem o valor literário dos seus pares, mas investem invariavelmente na má-língua, sem crédito e sempre devedores. No entanto, são fiéis e humanos: o contrário também se aplica quando têm crises.
Há os que procuram conforto na sombra dos outros. São escritores desconfiados e incertos. Procuram o ombro alheio como almofada para a consciência deles. Não tem nada a ver com plágio. Têm atitudes mínimas, tanto na vida como na escrita, capazes de enormes estragos para consequência própria. São uma espécie de toupeira. Claro, também são oportunistas.
Conheço poetisas: uma que se dedicou à jardinagem por uma questão de linguagem. Vive com a mãe numa quinta. Ganha a vida na composição de arranjos florais. Ganha todos os prémios. Frequenta os mercados da (agri) cultura fútil e sofre de delírio pelas personalidades bem instituídas. A boa constituição também faz parte do seu prazer.
Há os que se sentem mal avaliados. No entanto, devem-lhes em reconhecimento o que eles nunca poderão pagar em integridade. Normalmente, têm um discurso de mercadores, e as ideias expostas no papel têm a caducidade dos produtos de necessidade duvidosa. São escritores que dizem por fora o que não conseguem escrever por dentro. Uma questão de interioridade. Os mais curiosos e patéticos são os que procuram salvação. Passatempo: morrer quantas vezes for necessário para se convencerem de que estão ainda vivos. Ilusionistas do disparate. Ressuscitam sempre quando ninguém dá conhecimento da existência deles. Cadáveres convencidos.
E há os que se prestam à grata função decorativa em sessões de homenagens e festas literárias. São flores para tanto colorido. Em termos literários, são criativos na imbecilidade e repetitivos na abordagem poética. Entre dois copos, croquetes em posição de mastro e guardanapo desfraldado, nas tais festas giras com editores marinheiros e críticos enjoados, os seus projectos navegam de vento em pompa e circunstância. Na ressaca, as promessas da véspera encalham nos cornos da aparência. Só as flores prometem tanta beleza.
Este é um escritor original: amigo da literatura ao ponto de rejeitar a escrita. Mantém-se fiel à angústia que herdou da sua sisma visionária. O tempo é a sua musa. A preguiça a sua obra. Expõe-se nos labirintos da ilusão. Fala mal de tudo o que não consegue alcançar. Tem a intuição da palavra, mas transformou-se num indivíduo amaldiçoado pela arquitectura da frase. E assim vai o romance e a poesia em cortejo de sacrifício, e embora seja pobre a boda, da festa ninguém desiste. Cumprimentos ao Alcides.
Senhor Biva
Me enseño que el tesoro era yo
si sabía que yo era
la puerta
y la llave.
Fue de noche y parecía de día.
Era martes y parecía sábado.
Fue en soledad pero sentí comunión,
certidumbre oculta,
fragante y perfecta
en todo.
poema de antonio orihuela
Sobre la vieja charca
aves migratorias,
ningún camino.
De la vieja charca
volaron las aves migratorias,
ningún camino.
Es imposible morir.
poema de antonio orihuela
Nos zambullimos en el mar,
en los recuerdos, en los amigos,
intentando limpiarnos de todo esto...
Lástima que el mundo
siempre este dispuesto a colocarnos sus prótesis.
poema de antonio orihuela
No esperamos a estaciones especiales,
me apuntó a los ojos
y hoy se revuelve contra mi espalda
tosiendo.
La vida no es que se haya abierto como un arco por ello,
pero nos va empujando en la sordera del mundo,
en el bocado de los días,
en los paseos con el puto perro camuflado entre las flores.
Me faltan esquinas,
el mar,
la lluvia que estará cayendo en mi patio para ella sola
sin alcanzar mi boca,
pero tengo el pecho tranquilo
y el tiempo corre rojo
por el rio.
É a primeira vez que respondo a um inquérito desta natureza: os dez livros que não mudaram a minha vida. O convite partiu do José Carlos Barros. Da lista dele salvava o Jack Kerouac e o Norman Mailer, para os pôr à prova na tentativa de mudarem a minha vida. Já perceberam: ainda não os li. Os livros que não nos mudam são os que estão mais perto de nós. São livros que falharam nesse grande objectivo de mudança no leitor, e no entanto excederam-se na particularidade de o leitor continuar a ser quem é. Só os grandes livros podem não mudar a vida de quem os lê; isto no caso de encontrarmos nesses livros aquilo que já somos. Não acredito em livros que mudam vidas. Ou o livro é mau; ou o leitor é fraco. A mudança está associada ao fracasso que antecede a vontade de mudar, isto é, seja qual for o motivo que nos leva a querer mudar, a base é estruturada a partir do negativo. O leitor é que muda o livro de acordo com a sua capacidade de leitura e entendimento.
- “Cântico Final”, Vergílio Ferreira (roubei-o, e nem por isso me tornei um ladrão).
- “ Os cus de Judas”, António Lobo Antunes (encontrei-o no chão, molhado da chuva e esfarrapado. Li-o pela primeira vez sem saber o que estava a ler. Não me deu prazer nenhum. Nada mudou a esse respeito: continuo a lê-lo sem entusiasmo).
- “O Amante”, Marguerite Duras (confirmou aquilo que eu já sabia: se queres ser original escreve sobre a tua própria vida).
- “Quando o Inexorável”, António Ramos Rosa (a ideia que tenho dos meus primeiros poemas ainda me acompanha; e sugiro: se não sabes sobre o que escrever, não inventes. Complica).
- “O Livro do Riso e do Esquecimento”, Milan Kundera (a melhor estrutura dum romance é a memória).
- “O Complexo de Portnoy”, Philip Roth (apenas encontrei a personagem que havia em mim).
- “O Segredo de Joe Gould”, Joseph Mitchell (assustam-me vidas como a do Joe Gould. Continua a assustar-me vidas como a do Luiz Pacheco. É difícil vivermos no mesmo tempo).
- “Teatro Completo”, Sara Kane (continuo a não saber o que é a realidade).
- “A Luz em Agosto”, William Faulkner (o estilo é um acto de coragem. Quanto a mim, sobra-me em coragem e que me falta em estilo).
- “Bíblia Sagrada” (o Livro dos roubos. Vou lá buscar aquilo que é meu).
Tras años de sabor a nada
llegas en el sonido de aquellas trompetas telescópicas
toda la tarde.
Hacia donde corres, recuerdo que habla,
amor amarillo, verdad?
Dime, dime espesura:
Por qué nos conservas en el dolor?
Por qué hemos preservado lo que fue destrucción?
Dime, dime enramada:
Hacia donde nos empujamos?
Historia interrumpida, ilusión,
cuchillo clavado en el centro de la dulzura.
Toda la vida serás ya
cicatriz
y herida.
poema de antonio orihuela
O poeta Antonio Orihuela enviou-me um conjunto de poemas para divulgar no escrita ibérica. Companheiro de alguns encontros: Moguer, Edita e Palavra Ibérica; é com muito prazer que vos apresento Orihuela.
1.
Sueño contigo
me ofreces tu cama
para despertar.
2.
Tengo hambre,
dame un beso.
3.
Nube loca, de tu navaja
espadas de madera.
4.
Qué ruta,
qué sendero,
qué monte,
qué mundo...
qué leios.
5.
Ya sabes que el amor no tiene fin,
y ve debajo del tiempo y la lluvia y los caminos...
... sabe de viejos árboles,
de amorosas cunetas,
sólo yo voy por ellas,
sólo tu sabrías regresar.