Há seis anos que passo a maior parte do meu tempo no estúdio do meu amigo Harry, um pintor de cinquenta e seis anos, dócil e um pouco tonto, que veio de Inglaterra no inicio dos anos 80. Todas as tardes e durante a noite, excepto aos domingos, passo-as no estúdio a pintar. Estava a fazer uma série de trabalhos com modelo. Harry tinha as suas amigas, jovens estudantes que faziam tudo pela arte, que davam tudo pela arte, e quando eu digo tudo, isso também incluía o seu próprio corpo. O sexo vinha invariavelmente depois. O sexo e a arte: eis uma das grandes vantagens do artista sobre as mulheres. A imobilidade do corpo nu exposto diante de mim e a concentração da mente é a combinação perfeita para que algo surja para além do domínio da arte. O nu é a arte da sexualidade. Aquelas raparigas não ignoravam que, pelo simples facto de se despirem, a arte também as compensava das suas necessidades, tanto físicas como emocionais. Não pensem que as sessões de desenho e pintura com as miúdas no estúdio do Harry descambavam para a promiscuidade, que aquilo no fim se transformava num banquete de corpos enlaçados e transpirados pela actividade sexual. A imagem era mais romântica e o ambiente que nos envolvia - todo aquele jogo de luzes e sombras, toda a encenação programada em nome da arte - era sublimado pelo sentido puramente criativo. Eu sei, sei que a arte é transgressão e imoralidade. Pelo menos é assim que a sinto: não há arte sem desejo nem sexo sem vontade de fornicar.
No estúdio do Harry, muito por culpa do ambiente instalado entre modelo e artista, a aproximação física é natural e favorece a intimidade. Sou eu que sugiro a melhor pose, mexo no corpo de forma a conseguir a melhor perspectiva, enfim, tenho mesmo de ser eu a moldar o corpo nu, ou seminu, de acordo com o estudo que se pretende. Podem pensar que esta prática em que o corpo é preparado se confunde com o acto sexual. E depois? E se for um acto preliminar para o sexo que há-de acontecer? Não permitirá a arte o direito de consumirmos a fonte donde ela provém? Atenção, nem todas as raparigas que passam pelo estúdio estão dispostas ou disponíveis para que isso aconteça. E nesse caso resta-me ficar (Harry raramente estava presente) deliciosamente satisfeito pela sedutora interpretação da minha arte em relação a elas. Insisto: não confundem trabalho artístico com oportunismo erótico. Ou luxúria. Os modelos estão ali porque desejam, e também eles praticam a sua arte da sedução.
Harry é um homem de uma bondade impressionante e deixa-se enganar constantemente pelos amigos. Confia em todas as pessoas e isso já lhe trouxe vários problemas. Roubos, traições, actos de vandalismo e até agressões, tudo isso é a paga que ele recebe de quem o procura para lhe pedir favores. É incapaz de negar seja o que for que lhe peçam. Já vi passar pelo estúdio toda a qualidade de malta; uns ficam durante um ano, no máximo, outros safam-se ao fim de poucos dias, deixando as marcas da sua ingratidão. Harry parece não se importar, ou não dá tanta importância a esses casos, o que faz dele uma pessoa com uma capacidade desarmante para perdoar. Por vezes recebe-os de volta e a história repete-se, o que me deixa furioso. Eu sou um resistente, nunca traí a sua confiança, e ele comove-se com o afecto que lhe dedico. Estou sempre presente nos piores momentos da sua vida.
Harry veio para Olhão e com a herança dos pais entretanto falecidos comprou algumas casas em muito mau estado de conservação e devolutas; casas térreas com açoteias e mirantes, muito apreciadas pelos estrangeiros; e recorrendo a um sistema económico e rústico de reconstrução, contratou pedreiros rascas, suspeitos e pouco profissionais, que não cumpriam prazos nem respeitavam orçamentos. Algumas das obras foram sistematicamente suspensas e retomadas por outras equipas de trabalhadores ainda piores do que as anteriores. Nenhum projecto fora concretizado na perfeição, dando às casas um aspecto de eterno improviso: os esgotos e as canalizações eram um cancro e as paredes abriam fendas por força das mudanças de temperatura. Mas Harry achava tudo muito bem e minimizava os estragos que lhe assaltavam as contas no banco, e eu penso que esta era a sua forma de se defender do ridículo que significava a sua inexperiência empresarial. Dos rendimentos de Harry, além da herança que aos poucos se curvava sob o peso dos fracassos e da má gestão, passou a constar também as rendas das quatro casas que alugava a turistas ingleses. Uma agência imobiliária Inglesa tratava do assunto e tratava igualmente de o enganar com aquelas formalidades todas da especulação. Pobre Harry: mais facilmente detectava um quadro falsificado do que um falso amigo, um burlão romântico que se enamorasse do seu coração inocente e bondoso.
Não posso considerar-me um verdadeiro pintor, nunca estudei arte. Lá em casa o orçamento não simpatizava com esses luxos. A minha mãe lavava loiça e descascava batatas num restaurante de terceira classe. Matava-se a trabalhar e andava a pé porque o ordenado não lhe permitia que se deslocasse de autocarro nos oito quilómetros que fazia diariamente para o emprego. O meu pai trabalhava no jardim dum bairro social a quatro quilómetros da nossa casa e comia no casebre das ferramentas o almoço que eu trazia de casa quando ia para a escola. O meu pai detestava ser jardineiro. Todas as noites se queixava à minha mãe que os miúdos do bairro o apedrejavam quando ele os perseguia e os acusava de vandalismo. E assim o filho do jardineiro tornou-se autodidacta. Comprava na drogaria latas de um quarto de litro de tinta, as cores primárias, e roubava pequenas placas de madeira numa oficina de carpintaria. A rigidez do orçamento familiar arruinou as expectativas de me tornar um pintor formado, mas criou em mim uma obsessão que ainda hoje me mantém em actividade. Durante uns tempos trabalhei como assistente dum velho pintor que um dia apareceu na sociedade recreativa do meu bairro, a convite do director, para decorar as paredes do salão de baile. Eu punha-lhe ao alcance da mão as latas com as cores que me pedia, e o velho, quase sempre alcoolizado, despachava com a trincha as suas cascatas com efeitos impressionantes de pinceladas de água multicolor a cair num borrão salpicado sobre os calhaus esculpidos pela espátula. Paisagens incendiadas numa profusão de labaredas a fazer lembrar ketchup; paisagens africanas com figuras femininas numa linha de sombra esbatida a caminharem por um longo triângulo de terra batida cuja perspectiva esbarrava contra o tecto do salão; cenas de caça a cavalo com cães em pose de corrida e ostentando na boca faisões e lebres que mais pareciam bonecos de peluche; e flamingos reflectidos na placidez dum lago iluminado – eram estes os temas preferidos do velho que, em cima dum escadote, transformava as paredes esburacadas e com marcas de pregos da enorme sala em quadros intensamente ingénuos. Lembro-me de contar as patas dos flamingos, relacioná-las com as sombras e reflexos na água e concluir que havia no conjunto patas sem flamingos e flamingos com patas a mais. As pessoas admiravam a decoração, davam opiniões e sugeriam ideias que o velho não ouvia ou ignorava. Havia quem criticasse as cores do céu ou as tonalidades das águas quando estas não correspondiam ao pobre imaginário popular, mas esses eram expulsos da sala pelo director. Estavam lá os meus amigos e foi assim que eles ficaram a saber que eu também pintava ou tinha pretensões a isso. Com a prática entretanto adquirida já dispensava as instruções do meu mestre e antecipava-me a colocar as latas à sua disposição, segundo os meus critérios. O erro era insignificativo, e não trazia grandes prejuízos para a composição. Raramente era contestado, o que me fazia sentir parte responsável pela autoria do quadro.