Desenho-me neste papel
pinto-me de cores estranhas
cores que nem combinam comigo.
É deste modo que me sinto
qualquer coisa como...
Preciso de um olhar
que não posso ter.
De uma voz que me traria
uma alegria instantânea e recarregável.
Infelizmente não a ouço
e era tudo o que poderia ter neste momento
vindo de ti a tua voz.
Mas não a escuto: onde estás?
Poema escrito por: Andreia Joaquim
É como se não chegasses ao fim do teu pensamento. Como se houvesse um corte entre o que pensas e que deverias ter pensado ainda para atingires o ponto mais elevado desse pensamento. Essa impressão de que alguma coisa ficou por dizer, como um som que deixasses de ouvir, essa paragem do teu pensamento que se recusa em prosseguir, que se dissolve no sangue onde a escrita permanece, essa cessação de movimento, dizia-te eu, é a suspensão da tua própria linguagem.
Escuta. Um pensamento acaba sempre a começar. Não há um fim. O que se pensa ter chegado ao seu termo é necessariamente a aproximação do que há-de principiar. No meio, tu. Permites que tudo mude. Abres-te, fechas-te. Reunes a vida inteira numa palavra, a tua vida. Pertences a um lugar que te não pertence, não pensas nisso, nunca pensaste, revelas pensamentos, esqueces. Agarras o sentimento de que tudo é uma perfeita palavra, nítida como uma paisagem, a única coisa que te ocupa, desde sempre, desde o princípio, assim que termina o que tem início antes e depois, violentamente, sem que te apercebas da mudança.
O que te leva a deixar de pensar uma coisa e pensar outra. Numa relação de igualdade, intimamente ligadas, embora ocupando na tua consciência lugares diferentes, mas mantendo uma conversa que é o drama dos teus sentimentos, esses seres vivos que se agitam e vêem-se nos teus olhos, e a quem o teu rosto dá resposta, legível pelo que em ti é pensamento.
Pensas contra o que pensas. É aqui que eu quero chegar. Aqui precisamente nesta espessura de palavras que transportas todos os dias num cérebro atordoado. São as coisas o que nos falta ser. Apertas as palavras entre os lábios, abre-se o silêncio e é visível o esquecimento. De ti nada pretendem as mesmas palavras. Se eu escrevesse era a sombra incontronável. A cor da luz que guarda a casa.
Nunca mais o teu amor, a noite presa nos teus braços, a cidade vazia atrás da porta, herbie hancock a preparar-me um silêncio aromático, falei contigo na memória, e eu triste depois de um beijo, nem sequer me aproximo de uma janela, alguém és tu na minha tristeza, dou dois passos até à cozinha, sinto que ainda vivo na tua casa, fiz o desenho da tua casa, os meus passos loucos na tua vida, quero habitar o passado, nunca mais a noite no teu corpo, e eu tenho paredes vazias para sofrer, e eu tenho uma ameaça de luz do teu amor perdido, fala comigo silêncio, fala comigo solidão, e se eu escrevesse era para te matar, e se eu escrevesse era para te criar, e se eu escrevesse era para sempre, trabalhei muito a miséria dos outros, estou cheia de sofrimento, ensinei o silêncio a calar-se nos doentes que me procuraram, amor em forma de doença, amor sempre a morrer, nunca mais amor, tiraste-me o mundo dos meus sonhos, nunca estiveste dentro de mim, nunca se rouba a felicidade a uma mulher, eu sou interior na tua ignorância, tu és oco na tua distância, vou aperfeiçoar a minha vida na escrita, quero ser escrita do que perdi, quero ser palavras do que nunca me disseste, a minha cidade este quarto, a minha vida este quarto, o meu amor tudo destruído, durmo no prazer de estar acordada, não tu não podias destruir o amor, não tu não podias amar-me como se um dia cometesses um crime contra mim, é estranho o que uma mulher sente quando está só numa cidade, não posso lutar contra o ódio, não posso lutar contra o esquecimento, hancock meu deus, agora tenho lágrimas para a tua música, estas paredes são a minha desgraça, nunca mais paredes violentas, os meus passos como se caminhasse numa casa perdida, e tu nunca, e tu para sempre, e tu raiva, e tu história terminal, mas as palavras são sempre a sensação de querer vivê-las, tenho palavras porque sofri, tenho palavras porque procuro amor, tenho palavras nas paredes do meu quarto, as tuas palavras que nunca se ouvem, nunca mais noite nas tuas palavras, nunca mais mentiras, meu deus herbie a tua felicidade na minha mente, a minha saúde herbie, a minha saúde nesta casa fechada na cidade herbie, oh! infância retoma o teu lugar na minha vida, quero dormir infância, quero adormecer protegida na minha infância, herbie hancock infância, meu amor infância, nunca mais o amor será a minha infância, o teu amor nunca mais.
A voz parte mesmo antes das palavras, e os lábios ficam no lugar do dizer. Como se tudo fosse dito em face do esquecimento e fosse princípio o pensamento que separa da consciência o infinito silêncio.
O obejcto dá à palavra o sentimento da língua. Um rumor de água e de música que o corpo vai gravando na consciência límpida. O objecto é o estado sólido da fala, e a sua densidade lateja no olhar de quem consome o calor das palavras. O sabor da matéria na concavidade da memória.
A total ausência de luz é um perfeito isolamento. Quase nunca é uma sombra ou um desiquilíbrio do silêncio. A íntima respiração do seio ou a imóvel presença. É como a voz de um tempo inabitado. Ou como uma palavra que procura no pensamento uma porta aberta ou um desejo do esquecimento.
Quando pensamos estamos a realizar uma escrita ilegível no seu primeiro estado. Uma escrita que nos surge numa ordem reversível. Como se escrevessemos para dentro de uma coisa e essa coisa nos devolvesse tudo quanto tivessemos escrito.
Começamos por abandonar as palavras, mas nunca aquilo que pensamos. O pensamento enrola-se no silêncio, faz o seu trabalho. Os nossos olhos entram onde nunca entraram, onde era impossível entrar. Aceitamos e rejeitamos e é isso que constrói o pensamento. É neste equilíbrio que permanecemos. Estar imóvel é ir além do lugar onde estamos, olharmo-nos de lá para cá, de dentro para dentro. Abandonamos as palavras, mas nunca o pensamento.
Numa ordem de absoluta densidade todas as palavras caminham através do olhar, procurando na luz delicada e luxuriante os vestígios de uma secreta respiração. Há um pensar antes. Como uma linha de água. Como um fio de luz. Há um pensar ainda sem palavras. Profundo.
Somos a superficie e o esquecimento da palavra. Pensamos onde a palavra não existe, mas só o pensamento. Procuramos no pensamento o que o pensamento procura na palavra. Estamos na superfície, mas estamos onde somos no pensamento.
Uma presença de barco. Talvez mulher, imóvel, luminosa. A água e a luz da nudez entre as flores dos olhos e a presença nascente. Sombra que ilumina mais que a palavra possível. Rumores de saliva, ondas, raízes de música em equilibrados relevos. Ventos, explosões de paixão longínqua. Lábios e areia, espaço percorrido. Sons de seios, amorosas nuvens em sossegos horizontais. Palavras que na travessia da língua amam a embriaguêz da imagem.
Os passos em volta da boca. Dizer alguma coisa seria situar o rosto no ponto mais alto do silêncio. Seria ainda despir o sol na curva mais longa do corpo. Espero pensar no começo do pensamento. Espero a boca nas palavras. Não são palavras. São objectos que eu oiço dizer. O que as palavras utilizam é a substância, os seus desenhos. São estes os sinais disponíveis, o lugar em cada coisa, em todo o corpo encoberto. Até que a obscuridade não seja nenhuma.
Estas aves são os primeiros frutos do nosso cérebro. E a sua inocência voga na língua de uma coreografia luminosa. Os fios das asas emaranham as pedras soltas, derramam no vento uma necessidade de água. Onde termina a luz e os pulsos ensinam o caminho da morte.
Não fujas. Não abandones a tua posição face ao que pensas. Acho que, se fugisses, o teu afastamento seria interior, a tua fuga não te levaria a nenhum lugar precisamente, antes pelo contrário, sentir-te-ias mais prisioneiro perante ti mesmo.
São assim as palavras, umas vezes dizem tudo, mesmo para além do que nunca tenhas dito, são excessivas como é em si o teu pensamento; outras, representam apenas fragmentos ou sinais de um longo discurso.
O que tens a fazer é continuar, rasgar essa névoa trágica, esse silêncio agressivo ao longo do corpo. Erguer a tua vontade acima de qualquer obstáculo, sim, penso que seja isso, deves continuar a insistir. Insiste sempre. És o movimento das próprias palavras. O movimento das coisas por ti designadas.
Tudo o que escreves, tudo, o que quer que seja que tenhas escrito, nunca o terás escrito nem pensado se ignorares o movimento de cada palavra e de cada imagem; de cada posição face ao teu pensamento; de cada mudança de lugar ou de tempo.
Experimenta caminhar pelo teu quarto, mas como se caminhasses por essa folha, por esse deserto onde nenhuma palavra se revelou ainda, por esse espaço sob o teu olhar pensamento, por esse mar, por esse medo. Experimenta caminhar pelo teu quarto, faz isso, caminha. E tenta sobretudo não pensar em nada. Não penses. Fala-me da tua infância. Mas fala-me como se não falasses de ti, nem do teu passado. Fala-me das coisas que representam ou representaram a tua infância. Terás de ser tu, tu, a ocupar agora o teu lugar junto de ti, e por mais ausente que te sintas neste movimento, é pela ausência que deves regressar, através das palavras.
Vais pensar que nenhuma palavra é enquanto não escrita. Que o teu pensamento lê em ti o que em ti as palavras significam. Que a luz do teu pensamento não é a claridade do que pensas. Que as palavras não são nada, nada, só o que tu lês, ainda.
A leitura representa-te, representa as palavras. O teu pensamento aprende a pensar, a descobrir, a formar. Vais ler muitas vezes o que não existe, o que ainda não existe, o que nunca poderá vir a existir. Vais ter de repetir as mesmas palavras, escrevê-las sem que as tivesses escrito, abandoná-las, esquecê-las, reencontrá-las. O que tu lês, o que tu queres dizer é uma aproximação do que na realidade desejarias ter dito. O que tu escreves é o reflexo, o desenho dessa leitura.
Escreves. É possível que escrevas, não as palavras, mas o seu significado em si. Quero dizer: não o desenho das palavras, mas o que as palavras representam em relação a ti. Também podes pensar que a leitura ajuda a pensar. Conduz o pensamento. Refiro-me à leitura do já escrito, precisamente ao resultado da escrita enquanto visível; isto é, da escrita exterior à própria leitura.
Depois das palavras, depois de tudo o que existe dentro das palavras, a vida bem acomodada em tudo o que ela lhe dizia, fui casada sabes, estive a viver com um homem e senti medo depois das palavras, as palavras dele nas minhas costas voltadas para a dor de o não sentir presente na mesma cama, não me tocar nunca um abraço, a respiração dele numa distância de sofrimento, nunca um toque numa representação de prazer depois do silêncio, o tempo contra mim a construir a ausência e nunca uma palavra como uma peça de roupa para não me sentir despida, e eu a sentir o fim do amor e o fim que as palavras desenhavam nos lábios dele, fim, sabes, fim da vida de amor nos teus braços e nunca um abraço, os teus braços no desejo de senti-los, o teu sexo como uma legenda publicitária para meninas loucas, a vida como uma luz que se perde, acender essa luz no teu coração adormecido, nunca uma palavra sabes, tenho muitas pedras na minha vida, viver rodeada do teu silêncio, amar o teu silêncio, amo o que não me dizes, amo o que não me tocas, amo o que não me amas, és um animal entre as minhas pernas, esfrega-te no meu sexo animal silencioso, respira na minha boca uma palavra de silêncio animal, aperta-me contra o medo animal, e depois nenhuma palavra sabes, animal corajoso do sofrimento, e ele dormia com o mal e acordava na minha dor, e eu amava-o na destruição de sentir-me destruída, e eu a julgar que o amor não precisava de palavras, a minha cama sem palavras, a minha casa sem palavras, os meus filhos sem palavras, o amor é uma cortina de teatro a cair sobre o palco da minha vida, é a tua vez de dizer que o amor já não existe animal, choro no teu corpo, choro no fundo do teu corpo e não me ouves, vou pensar na minha vida como se fosse um céu, vou voar no esquecimento das tuas palavras animal, não tenho nada palavras, não tenho nada amor, não tenho nada prazer, a noite tão pesada sobre os meus pensamentos, eu tão nocturna em tudo o que em mim é pensamento, eu tão vazia na imensidão da tua ausência, palavras sim animal, palavras noite meu amor animal, palavras choro desfeitas por ti ausente animal, a minha cama nocturna dentro do meu peito, o teu sono odioso dentro da minha cama, os teus beijos e eu sonho na tua boca, os teus braços e eu choro na tua força, as tuas palavras e eu vivo no teu silêncio.
Mesmo quando não se escreve nada, escreve-se sempre qualquer coisa.
Estarmos cheios de qualquer coisa é estarmos vazios dessa mesma coisa. Quanto mais penso ( em termos de escrita ) menos escrevo; logo, menos capacidade têm os meus pensamentos para encontrar a forma do texto ( escrita ).
Estou no caminho da poesia. Não penso poesia. Escrevo procurando outras formas de poesia. Escrever poesia é caminhar para uma descoberta. Nunca sei o que vou encontrar; encontro-me em cada palavra, em cada impressão que a escrita me impõe.
Escrever é libertar; dar liberdade a. Escrever não é, para quem escreve, libertar-se; é prendermo-nos aos outros. Escrever é prender os outros, libertando-os de outra prisão, de outra liberdade. Se as palavras me prendem, escrevo-as, libertando-as; prendendo-me também nessa liberdade onde as palavras são a porta sempre aberta, sempre fechada.
Quanto mais penso é quanto menos pensamentos tenho para pensar. Pensar é procurar o pensamento. Ter pensamentos para pensar é estar cheio de coisas em forma de pensamento. Que coisas são os meus pensamentos? Não tenho coisas no meu pensamento; tenho formas, palavras que não são nada; tenho pensamentos.
Escrever tudo o que existe no meu cérebro não é escrever tudo o que pode existir no meu cérebro. O que de maior importância existe em meus pensamentos foi pensado fora do meu pensamento; isto é, não chegou a entrar no meu cérebro.
Quanto mais elevado é o nosso conhecimento por tudo o que nos é dado conhecer, mais nos damos conta do que foi a nossa ignorância.
Um pensamento é a projecção de outro pensamento.
SE ENCONTRARES NA TUA MULHER TUDO O QUE PROCURAS NAS OUTRAS, SER-LHE-ÁS SEMPRE FIEL.
Interior, noite. Sala com televisão. A Rita está sentada ao lado do padrasto no sofá. Passa no écran um filme de Stanley Kubrick: precisamente LOLITA. O homem adverte a menina da natureza das imagens e aconcelha-a a ir para o quarto. O filme é para adultos. A Rita argumenta que é uma senhora e que nada a impressiona. Tudo aconteceu como se o tempo engolisse algum espaço da vida dos dois. De súbito, sentiram-se projectados um no outro como se os pensamentos que orientavam os seus actos perdessem o controlo total da razão. O ser adulto transpôs todas as barreiras do tempo.
CENA:
pediu-me que eu adormecesse no seu colo e ignorasse as imagens provocadoras. Deitei a cabeça nas pernas dele e imaginei-me durante um passeio no campo a ceifar todas as flores que despontavam à minha volta. Era quente o repouso e uma mão acariciava os meus seios, massajava-os lentamente numa delicada rotina dos dedos e por vezes sentia uma pressão voluptuosa a eternizar os meus desejos e fantasias. Estava enrolada sobre o corpo dele, os olhos fechados, meio adormecida e tonta devido à escuridão que exercia em mim um afastamento delicioso. As minhas cuecas deslizavam na pele, uma mão fazia a sua viagem para baixo e para cima, para dentro e para fora, depois beliscou-me as nádegas onde o elástico das cuecas fazia vinco, sentia uma explosão de alfinetes a picotar-me a pele, o coração, e ouvia ao mesmo tempo um ruído excitante a acompanhar a respiração dele muito perto dos meus ouvidos, a língua a fervilhar na pele do meu rosto, a procurar a boca entreaberta e salivosa. Tinha uma colcha fina a tapar-me o corpo e a luz da sala era fraca. Talvez por isso nunca sentira vergonha. porque as mãos dele estavam sempre escondidas e apareciam inesperadamente como se fizessem parte de um jogo em que eu tinha de permitir, por via da sensualidade e do desejo, que as suas carícias contemplassem determinadas zonas do meu corpo. Nunca houve penetração, violência, ou contrariedade. Por vezes, durante a noite despertava com uma sensação no peito, um vapor morno e húmido a sugar-me os seios, e eu sabia que era ele fora do meu sonho, doce e cauteloso a murmurar-me que não temesse a ocasião e continuasse nessa sonolência. Queria-me cega e em silêncio para toda a vida, e eu fechava os olhos e lançava-me mentalmente nesse espaço oculto dos seus desejos, sentia-o correr para baixo e para cima no meu corpo, e o seu jogo erótico consistia numa roda que se fizesse girar para a nomeação do prazer de nós os dois. Não vejo nenhum muro dentro dos meus olhos fechados, apenas tenho a percepção dum movimento louco que sorri no interior da minha imaginação como uma máquina a costurar o erotismo. Também não sinto nenhum silêncio acusador, antes um silêncio que promove o consentimento. Ele vira-me na cama, sinto um bafo quente nas nádegas, e depois uma sensação de frescura como se fosse atingida por uma bátega gigante, uma língua dançarina atiça-me o anus, o silêncio permite-me escutar a sofreguidão do desejo dele, mantém-me desperta, faço um esforço para me voltar, ele cede e vira-me outra vez na cama. Não havia nenhum muro no meu pensamento por mais voltas que desse nas suas mãos e nenhum silêncio autorizaria qualquer grito que eu desse enquanto durasse o prazer.
Havia o mistério das pessoas sem consciência
aquelas a quem mostramos o forro da verdade
e mesmo assim sentimos que estamos em débito com a existência.
Se eu me atrevo a ser puro
o resíduo que inverte a minha mente
obriga-me a medir forças com a tua razão.
É o meu pensamento a transformar-se em riso
contra o vazio que tu calculas para a minha vida.
Sempre falei para o intervalo entre as nossas mentes.
O que se perde do que se sente
é uma gota de tristeza de toda a humanidade.
O lixo agora é puro sentimento.
O teu equilíbrio sentimental tem todas as virtudes
de uma lixeira plasticamente organizada.
Não te iludas: o teu coração não tem a capacidade duma incineradora.
Percorres a natureza e saturas a compreensão
como se fizesses uma leitura de Ginsberg.
A natureza é uma doença infinita.
E os teus passos pelo mundo não têm nada de grande cura.
A qualidade humana é tão antiga
que a razão escurece depois da felicidade.
f.e.p., in ensaio entre portas. ed. almargem, faro.
Consegues sempre destruir a felicidade das pessoas.
O espaço que eles habitam é redondo como um fruto.
No centro, ele, de perfil para o leitor. Apenas o rosto.
No extremo, limitado por uma linha curva, erguida e completa, ela.
A luz que os envolve tem a intensidade do olhar de cada leitor.
Não interessa aqui dizer como ela está vestida. Penso que não está.
Não há qualquer referência à sua nudez. Nada nos indica que ela está nua.
A frase pronunciada, a que se refere à felicidade das pessoas,
partiu dela, em diagonal.
As pessoas são as das suas relações, incluindo ela, naturalmente.
Ao escutá-la, ele constrói um silêncio, fecha os olhos, e nada diz.
Pensa que é verdade, que destrói a felicidade das pessoas.
Porém, recusa-se a admiti-la. Pensa que, por vezes,
é mais acessível calarmo-nos que dizermos toda a verdade.
Muito mais quando a verdade que nos exigem
é um defeito que não queremos revelar.
Ela dá três passos para a direita,
seguindo a linha que limita o espaço onde se encontram.
Coloca-se por sobre o rosto dele, na vertical.
Está no limiar do pensamento dele.
É nela que ele pensa neste momento.
Na felicidade destruída.
A mulher é o centro do homem.
Embora seja ele, o rapaz de perfil,
a ocupar agora essa posição em relação a ela,
é sempre a mulher o lugar do homem.
A felicidade pertence-lhes.
Poderiam ser felizes e no entanto é a ela que a ignorância se dirige.
Parte-se do desconhecimento que se tem de uma coisa
para a descoberta dessa mesma coisa.
Depois é quase sempre tarde para descobrir a verdade.
Ele observa-a, consciente da destruição.
Ela estende os braços, as mãos sobre o rosto.
Não há palavras. Nunca há palavras entre os dois.
Vemo-la tomar a posição horizontal, misteriosamente, ela: o leito dele.
Ele pensa: foi aqui que a amou, nesta posição.
Pensa, não o diz, pensa:
Amamos depressa demais para podermos amar ainda.
É decerto a velocidade com que atravessamos o tempo
o que nos faz endurecer de certo modo.
O corpo aberto, inocente, o ventre à espera.
A mulher é o próprio espaço da história.
Tudo acontece em relação ao seu movimento.
Ao mesmo tempo que a felicidade se perde nos seus passos à roda dele,
ela também transporta em si, no seu ventre, o fruto.
O rosto representa toda a ausência onde as palavras não significam nada.
A sua imobilidade é feita de desespero.
Se há uma força, uma voz, isso deve-se à espessura
do sangue que preenche a mulher.
Ele é um rosto sem palavras. Dele, já nada resta, nem apenas o vazio,
nem apenas o amor, nem apenas uma justificação para o fruto.
Ele pisa-a, na verticalidade onde ela se encontra.
Ela é o chão. É nela que ele cospe a sua fraqueza, a sua brutalidade.
Diz-se doente, de uma doença da sociedade.
Uma coisa assim estranha como o medo.
Todo o desespero que daí sobrevém explode em infinitos estilhaços
onde, no centro dessa ondulação violenta,
ela é invadida pela presença da morte.
Tal como a felicidade a morte pertence-lhes.
Ela caminha ao longo dos dias como se nesse trajecto quotidiano
a morte procurasse um lugar para esse fim, para essa destruição.
A abstracção total dele conduz-nos à concentração da mulher
por um determinado passo da sua vida. Para o rapaz de perfil,
a consciência é a mais verdadeira de todas as verdades.
O leitor poderá desejar que a morte não se apresente perante a mulher.
É indiferente. Tudo acaba quando não sabemos explicar como tudo começou.
Quando as águas rebentarem e o fruto cair,
a mulher viverá terrivelmente só.
E ele, o rapaz de perfil, suportará para sempre a luz dessa perda,
condenada a viver no seu pensamento.
É natural que os sentimentos se apresentem reciclados.
Não é possível experimentar uma felicidade antiga
ou sentirmo-nos luminosos na construção de outros tempos.
Agora, observo o mundo como se tivesse uma corda enrolada no coração
e a memória apagasse todas as imagens que alimentam
a minha transição humana.
f.e.p. in ensaio entre portas. ed. almargem, faro.
Escrever agora é percorrer as margens dos teus braços.
Beber na sombra o silêncio do teu sangue.
É respeitar as puras mãos, os odores delicados, os cristais do vento.
No esquecimento ondula ainda a sabedoria dos pássaros.
Uma tranquila obscuridade sobre o próprio rosto.
Escrever seria despertar as águas para celebrar as raízes do amor.
Na serena adolescência do tempo.
f.e.p. in na escrita e no rosto. ed. europress, lisboa.
A noite dorme no meu peito com tanto silêncio
dorme espontaneamente que é crime pensar
por que dorme tão espontaneamente.
Não penso. Nunca hei-de pensar por que dorme
a noite espontânea sobre o meu peito.
Apenas gosto de saber que qualquer coisa nocturna
esgota no meu peito qualquer coisa que eu não devo pensar.
Não vou pensar em nada que evapore o sossego destas coisas
sobre o meu peito. Não vou pensar.
Vou selar a noite com o meu silêncio.
f.e.p., in na escrita e no rosto. ed. europress, lisboa.
Havia um sinal que a M gostava que lhe fizessem quando se sentia com disposição para o sexo. Debaixo dos lençóis, o corpo abandonado num lume lento, se ela sentisse os pés do companheiro a esfregar nos seus numa ânsia de calor, o desejo corria-lhe a arder pelo corpo. Fora da cama todos os sinais eram falsos. Nunca havia uma verdade no modo como se olhavam, nem nunca havia um gesto puro quando se tocavam. Existia entre os dois um vidro sujo de vivências que transformava o desejo de se possuírem na mais triste farsa erótica que conseguissem representar. A vida era tão obscena, as relações fragmentadas no tempo por ódios e vinganças, e o que sobrava de um toque, de um beijo, de um gesto que se quer permanente no coração, se desfazia na distância sentimental do esquecimento. O amor era tão feio e o sexo tão sujo quando os dois no meio da sala uniam as bocas e as palavras se apagavam como uma luz intensa que não desejassem. E a M nunca sabia por onde se deixar amar pelo homem que não amava. Talvez porque fora da cama não havia corpo para ser amado. Havia uma representação sexual que exigia dois corpos que se anulavam amorosamente. E a vida quando se faz sexo é tão desarrumada no interior de quem não é amado, que a M ignorava o corpo numa tentativa de salvar o desejo. Sob os lençóis, obedecendo à correspondência dos pés, o desejo toma a forma do abandono quando o lume é uma dança lenta que permanece no peito. Para M a poesia é melhor amante que qualquer homem. Se o homem é o acto; a poesia é o sexo. E todos os poetas lidos por M passavam pelo corpo dela, porque era por eles que ela sentia ser penetrada até ao profundo poético que existe num poema-foda. É verdade, a M sempre soube que o amor/sexo é a página par/ímpar tristemente aberta no mesmo livro de poesia.
De que outra forma poderíamos viver acompanhados por alguém se não possuíssemos a capacidade de controlarmos a infelicidade e a mágoa de quem se deixa abandonar emocionalmente?
Não será o ódio um ponto de fuga e aproximação entre duas pessoas que levam uma vida de insatisfações e que se rejeitam pela forma como se sentem amadas?
AS MENTIRAS PASSAM PELA NOSSA VIDA E ACUMULAM-SE NUMA INDIFERENÇA CUJO OBJECTIVO É NÃO PERTURBAR SIGNIFICATIVAMENTE OS NOSSOS SONHOS.
Uma palavra que fosse todo o dizer e esquecimento.
Palavras que são o espaço e a herança destas palavras.
Uma palavra que durasse a calma embriaguez da música sobre a língua.
Uma palavra que fosse lugar e encontro de outras palavras.
Palavras que são a aliança e a matéria que nos faz pensar.
Uma palavra que tivesse a estatura do vento e o sabor da firmeza.
Uma palavra que tudo fosse.
f.e.p. in na escrita e no rosto. ed. europress, lisboa.
A NATUREZA HUMANA CONTURBA O SENTIMENTO AMOROSO COMO UMA TEMPESTADE OSTENSIVAMENTE PECAMINOSA.
A tua vida é a frase física.
Leio esse movimento do teu corpo
e observo que a acção representa
o teatro da tua debilidade.
O movimento não é a escrita
mas uma dança que reúne a essência da tua vida.
A escrita e a dança
são a decomposição do corpo.
f.e.p., in ensaio entre portas. edição almargem, faro.
Naturalmente que a amizade constrói em cada um de nós
múltiplos compartimentos que nos protegem da solidão.
Agora, ao sentir uns passos teus no pensamento, apercebo-me de que
o meu edifício sentimental abre as suas portas,
como se este movimento romantizado revelasse um fragmento
incómodo que alguma presença impusesse por erro.
O AMOR É UMA IDEIA QUE SE TRANSFORMA EM TORMENTO QUANDO SE ATINGE A MÁXIMA SATURAÇÂO.
HÁ COISAS DENTRO DE NÓS QUE NÂO SENTIMOS COMO NOSSAS, IMPRESSÕES SENTIMENTAIS QUE NOS FORAM IMPOSTAS POR ESTRANHOS ACASOS.
Ocupo-me do seu modo perante a vida.
Por vezes tenho medo que ela não seja feliz.
E ela não é. E eu continuo a ter medo.
É um medo que me faz pensar que alguma coisa ficou
mal fechada atrás de mim. Uma espécie de insegurança,
um certo sentimento de dependência.
Uma ponte, sempre na iminência de ruir.
f.e.p. , in na escrita e no rosto. ed. europress, 1993
Um rosto é um lugar de palavras.
Um rosto apagado, fechado sobre si mesmo,
é ainda um lugar de palavras.
Digo isto como se eu tivesse aberto o meu póprio
rosto e lesse a escrita dos meus pensamentos.
A escrita dos outros no meu pensamento.
Ao observar um rosto, tive muitas vezes a sensação
de abrir as palavras ao silêncio.
Na escrita e no rosto, todo o ser se abre para os outros,
mesmo em silêncio.
A mentira dos que fingem amar dá sempre uma boa ideia do que deve ser o amor. Que conforto! Que prazer! A mentira até cega a repugnância que se poderá sentir pelo outro. Disfarça o nojo, anula os actos e dissimula o desejo.
APAGAR SEJA O QUE FOR QUE SE TENHA ESCRITO É ELIMINAR O TEMPO QUE POR SUA VEZ JÁ NOS ELIMINOU.
Nas paredes do teu quarto escorre o silêncio que eu oiço nas palavras que te escrevo. Foges do frio e da chuva, abandonas a cidade, o teu pensamento a guiar-te pelas ruas desertas. O meu pensamento distante é suficiente para te isolar da vida exterior. Eu oiço o teu silêncio como se recolhesse nos teus passos húmidos pelo caminho as palavras que tu pensas até chegares a casa. O meu nome são as pegadas de um desejo deixadas por ti na urgência do tempo. Escrevo o interior do teu quarto e o silêncio é o teu olhar cansado numa folha cheia de palavras. Escrevo um ensaio entre distâncias, o teu corpo em construção como uma ponte que une os nossos silêncios. As palavras que tu escreves são sinais amorosos que se desfazem na leitura da minha solidão. Moves-te pelo quarto numa dança luminosa, e o medo é a voz do meu coração. O medo é o som deste silêncio gravado à volta do teu quarto. Tenho esta imagem de ti: uma mulher a vaguear entre o amor e a desconfiança. Se o silêncio fosse as grades da tua alma, o silêncio também seria a impossibilidade da minha escrita. Mas eu escrevo o teu silêncio como se o amor fosse as paredes que fecham o teu quarto. Eu também destruo o meu silêncio contra tudo o que destruo em ti. E as minhas palavras transformar-se-ão no quarto onde viveremos nessa destruição. Porque o silêncio é a distância interior profundamente habitada por um sentimento futuro. Agora o nosso tempo é este som que escutas nas palavras que lês do meu pensamento. Ninguém destrói o silêncio sem antes destruir a pessoa silenciosa. As minhas paredes são as palavras que escutas no silêncio da tua dor. Destruir o silêncio é ignorar o amor que se deseja sentir.
A UNIÃO AMOROSA É UMA TENTATIVA DE SUBLIMAR OS NOSSOS PRÓPRIOS DEFEITOS PERANTE O OUTRO. QUASE SEMPRE UM TEATRO INACABADO NO QUAL FALHAM TODOS OS ACTORES.
É LAMENTÁVEL QUE AS PESSOAS SE DISPONHAM A AMAR QUANDO AINDA NÃO COMPREENDEM O AMOR. AMAM SEMPRE NO ERRO E NA DESTRUIÇÃO.
Leio a imagem de uma mãe a alimentar o filho pelo lado da vida
tem uma mão a guardar o ventre
e outra mão a controlar a futura incerteza.
Se fosse conveniente escrever pelos olhos do mundo
apresentaria a ideia de que infalivelmente nos permitem a vida
apenas quando estamos ligados em inconsciência
ao seio da sabedoria materna.
A verdade é sempre invariável e cansativa:
necessitamos de um corpo, mesmo fraco que seja
para nos protegermos
porque o fraco é a totalidade da sua vontade.
Não conheço a força que a mãe dispõe para preservar o filho
a imagem não me dá esse sentimento
leio o que os olhos da vida me permitem de lucidez.
UMA MULHER TAMBÉM AMA NA SUA TRISTEZA. SENTE O SILÊNCIO COMO SE EVITASSE EXECUTAR
UM MERGULHO DE ALTO RISCO EMOCIONAL.
QUEM SE AFASTA COM DOR E PROSSEGUE NA PASSIVIDADE CONTEMPLATIVA DA SUA REVOLTA
TORNA-SE ABSOLUTAMENTE UM VISITANTE INSOLÚVEL DA DEGRADAÇÃO HUMANA.
GOSTARIA DE MORRER ENCOSTADO A UMA ÁRVORE. OS DOIS ENCOSTADOS À MESMA ÁRVORE. COM O SOL A CORRER À VOLTA. ENTRE A SOMBRA E A LUZ. ENTRE O DIA E A NOITE. ENTRE A VIDA E A MORTE.
Queria ser uma menina, não uma menina-mulher, uma menina, na aldeia portuguesa, os meus totós, a minha bata branca, os sapatos que nunca pareciam ter sido engraxados, o cesto do lanche com um pato amarelo, bordado, o paninho do pão, o pão com queijo fresco, brincar ao " lobo da Serra ", dizer: " minha senhora ", ir ao recreio, vir para casa, não fazer os trabalhos, brincar com o meu cão e fingir que terra com água são as papas da minha boneca, a minha boneca chama-se Maria Rita e há uma canção com esse nome.
Queria ser ainda mais menina, em Toronto, a neve, ser difícil andar, porque escolhi o jardim em detrimento do passeio com sal, as minhas roupagens tão densas que me vestiu a minha mãe, não me deixam aproximar os braços do corpo, a minha lancheira cor de laranja com um thermos lá dentro, sumo de maçã, a teacher, rezar " our father " para começar o dia, o livro de leitura, chamava-se " make-believe " e tinha lá dentro guardada a história duma menina mágica, a Annabelle Blue, e eu ria muito com as tolices dela, e eu ia para casa, e o meu pai muito grande como um gigante apertando-me o dedo mindinho num dizer " gosto tanto desta menina ", e a minha mãe a dar-nos um lar...
( este texto foi escrito por uma menina-mulher-endiabrada )
Como se a pedra fosse a pele do teu rosto
são assim os teus dias desfocados
num olhar reduzido a uma imagem letal
a tua solidão é um buraco de medos
um funil de sangue por onde nenhuma palavra passa
mas nada é maléfico e triste
nem a magnífica pedra que substitui as pequenas mortes
pensa: é como se te dissolvesses nos intervalos da razão do mundo
sentir o coração atingido pelo fermento da dor
e no entanto continuares a escrever irreversivelmente embalsamado
o que a vida tem de delírio é não reconhecermos a nossa própria máscara
a escrita faz-te incendiar o tempo
e assim vês partir quem obedece
às regras da tua ausência.
Gillespie traz-me a figura do pai rastetejante sob a minha mente
eu observo o teu coração mudo
sim pai o meu medo e a tua guerra
o nosso silêncio é um olhar e alguns pensamentos
o que fica por dizer é a morte da tua alma
eu sobrevivo porque sinto líquidas as palavras nos meus lábios
sangue pai sangue por toda a vida
Gillespie queria dizer que o meu pai aproximava-se
por debaixo da minha consciência
como um animal amoroso transformado em coração rasgado
a perder líquidos de vida
e eu pai a ler o derrame silencioso do teu olhar
nunca vi ninguém olhar dessa forma para as minhas palavras
é como se te agredisse que eu escrevo um poema
a tua folha mortal diante do filho que escreve
o teu corpo desistente que a minha mente conserva.
Fazer sexo sem desejo é uma fatalidade das mulheres casadas? Ou fará parte do calendário de serviços domésticos, como limpar o pó dois dias por semana; limpeza completa uma vez por mês; ou, na pior das hipóteses, fazer a cama todos os dias? É uma obrigação que a herança do amor deixa no casal que já não se ama. É uma prova sentimental já sem nenhuma emoção para confirmar. Enquanto o homem se entrega ao sexo sem o sacrifício de ter que amar, a mulher entristece no seu vazio de ser possuída à margem do amor. Para a mulher casada sem desejo, o sexo é um fado vadio sem pronúncia amorosa. Incomoda-a. É como comer num prato sujo. O contrato conjugal tem poderes sobre os sentimentos? O casamento é uma promessa que se jura sobre o acto sexual obrigatório, ou sobre a livre vontade de amar? Será o amor uma assinatura ilegível que une dois seres até que o desejo os separe? As mulheres casadas sem desejo odeiam a cama que arrumam todas as manhãs, porque a cama é o primeiro sinal obsessivo que existe no seu desespero de se sentirem incapacitadas de amar e serem amadas. É um objecto de culpa e nunca um adereço de apoio ao acto sexual. A M faz sexo dia-sim-dia-não por motivos de conservação matrimonial. Nem sempre sente prazer, porque ela organizou para si uma tabela de auto-disponibilidade afectiva que lhe permite envolver-se sexualmente ( e como quer ) com resultados satisfatórios pessoais e/ou partilhados. Para M o sexo é apenas um nível superior jogado fora do contexto amoroso. Não sente a falta de desejo como um drama que a impossibilidade do amor criou para escravizar as mulheres que não amam. Ela ama na sexualidade que estipulou no mapa dos seus desejos secretos, e pratica o sexo como se hoje fosse dia de lavar as janelas; e amanhã nem o chão tivesse para varrer; e depois de amanhã mudasse a ordem dos móveis na sala; e depois se sentasse uma tarde a ler uma revista; e no outro dia lhe apetecesse ir às compras... As noites e os prazeres são sempre diferentes de acordo com o desejo sexual da falta de amor.
As pessoas boas são as que Deus não mostra ao mundo
porque elas vagueiam como uma luz rara
e apresentam-se como um intenso silêncio
tão longínquo e tão cego.
É limpo o coração dessas pessoas
servem-se da qualidade da reciclagem
absorvem os nossos dias loucos
acendem inúmeras velas sentimentais diante da nossa vida.
Deus é o fósforo dos actos das pessoas boas
e elas transportam a chama e queimam os erros dos corações nocturnos
deixam vestígios de brilho nos sentimentos vazios.
Como se sorvêssemos um ser luminoso
vamos recolhendo um extracto de Deus e de bondade
em cada passo de luz sobre um rosto desconhecido.
PARA A MARGARETE
Se eu me fixasse nos teus erros e concluísse
as tuas palavras são degraus ruídos e deficiências
não suportam o balanço na continuidade do pensamento.
Estou fixo na observação dum écran intenso
a perseguir uma folha de vidro a torturar-me a emoção.
Filmo-te com o meu olhar necessitado de breves distâncias
oiço a tua voz a ensaiar a liquidação dos teus movimentos.
Como o tempo ainda te dá o conforto da memória
rosto a rosto só o teu se expõe na verdade e se disfarça na ausência.
Eu sou o gume que fere a tua língua
a corrente compreensiva que desvia o sentido.
Tudo o que murmuras é o silêncio a perfurar os dias
um vento mortiço mobiliza o teu olhar.
Que direcção pouco protegida a minha atenção por tudo o que é incerto.
Uma família é um jogo mental
cheio de truques sentimentais.
Posso encontrar a razão numa linha musical de Ellington
qualquer emoção serve para compreender as regras da harmonia.
Musicalmente sempre me senti triste
voz e tristeza foram as minhas folhas escritas.
Palavras sobre a família: é importante ter um bom jogo psicológico.
Estou a enfrentar os vossos rostos armados
a vossa matéria emocional não é limite para o meu coração verbal.
Estou assim em jogo com todo o amor em causa
porque a família é um ensaio geral que regula a vida inteira.
Como se não precisasse das vossas palavras
o meu jogo é o de quem sobe os degraus musicais de Ellington.
Sinto-me instalado como se vivesse de cima para baixo
e não sentisse o pulsar da vossa alma.
" Tenho uma amiga que, ou é tonta ou não gosta de homens ". Foi com esta frase que o Professor B começou a contar a sua história sobre uma balzaquiana solteira que conheceu num desses encontros literários de fins-de-semana. " Pode um homem roubar o amor a uma mulher?" A história é simples. O envolvimento entre os dois assentava quase exclusivamente nos bilhetinhos que ela lhe endereçava por intermédio de um amigo servil, talvez um lambe conas tipo lencinho renova sempre pronto a retocar-lhe a maquilhagem do coração, ou então um escravo da frustração feminina a servir de carroça aos desejos maníaco-depressivos da rapariga, sem compensação carnal. O Professor B lá ia lendo a literatura daquela alma esponjosa: frases ornamentadas por uma afectividade antológica; palavras de bijuteria novelesca a fazer um efeito de grande paixão; revelações de sexualidade tipo filme amador para casalinhos inexperientes; provocações pouco entesadas, pois a rapariga nem sequer usava cuecas fio dental. É claro que o Professor B, nas respostas a tão cândida desenvoltura feminina, só podia ser um ordinário apaixonado. E na volta do seu coração preenchido, ele compensava-a com a seguinte ordem de desejos: quero pôr o meu sexo a segredar-te ao ouvido; marcamos um encontro com os teus seios no recanto mais florido do teu corpo; o que tu queres é foder, mas não sabes despir umas cuecas sem te sentires incomodada com a tua nudez. Depois combinaram um encontro para a consumição das promessas, mas a decoração afectiva que existia entre os dois não resistiu, desfigurando o encanto cúmplice e amoroso da relação. " A tonta da minha amiga só tinha histerismo dentro do coração", lamentou-se o Professor B. " Histerismo e medo de ser amada pelos homens. É uma mulher que ama pelos livros. E masturba-se com as palavras". Com as palavras dos bilhetinhos do Professor B, ou com as palavras do autor dos livros que lê? Nada estava definido na cabeça do Professor B, mas ainda o ouvi dizer: " A diferença fode tudo ".
O amor está sujeito ao silêncio
constitui um ramo sentimental da sua própria sede.
Às vezes o amor cresce para fora da vontade
e a alma mal adubada adoece as raízes da vida.
Subimos sempre ao corpo de quem amamos
mesmo que a razão seja obtida a partir da oleosidade de certas palavras.
O amor é o muro da nossa amizade
uma forma emotiva de transformar em inverso
todas as verdades que não sabemos entoar.
Assim se apresenta o silêncio
uma imagem de árvore despida e com medo
fustigada pela doença de uma solidão
abandonada num corpo absolutamente habitado
pelo que resta de memória.
- Vamos passar aqui a noite, disse Ibsen, quase a chorar.
- Não me faças isso, por favor. O meu padrasto virá à minha procura e, quando me encontrar, mata-te.
- Não tenho medo desse porco.
- A minha mãe tem amigos na polícia e vêm prender-te.
- És uma puta, tu e a tua mãe.
- Deixa-me beijar-te, por favor.
- Larga-me.
- Nunca amei ninguém como tu, por favor, beija-me.
- Não me toques. Não sentes nada disso. Estás a mentir-me.
- Olha para os meus olhos. Olha para as minhas lágrimas. Achas que isto é mentira? Quando fodes comigo achas que é mentira? Quando eu te deixo foder de todas as maneiras e feitios é mentira? Não sentes o prazer que me dás? Não entendes a minha satisfação em ser fodida por ti? Não sentes o meu amor e a minha entrega?
- Isso é o teu vício. O teu vício controla a tua satisfação. O vício é a satisfação em entregares-te seja a quem for. A satisfação é o teu prazer vicioso. O teu amor também é um vício. Tens o vício do amor. Amas de uma forma viciada. És uma puta. E como uma puta estás sempre nua por fora. Mesmo vestida, eu sinto a tua nudez. Até a tua sombra é sexual.
Olho para a Nossa Senhora fluorescente na mesinha de cabeceira. Uma miniatura sagrada esquecida. Uma luz que me faz sentir feliz. O meu corpo é empurrado bruscamente para a frente. Agarro-me aos lençóis da cama, a pressão é violenta, tento deitar-me de barriga para baixo, mordo a almofada, um movimento exaltado a bater-me nas nádegas, humidade, pele a chapinhar na pele. O meu corpo a bater no chão, ao lado da cama. A figura sagrada a luzir em muitas direcções. Tapo-me com uma ponta do lençol, cubro os seios por pudor. É nestes momentos que sentimos apagar-se uma luz qualquer sobre as nossas vidas. O chão encerado a devolver um rascunho da minha imagem. Fiz um esforço para olhar para cima, a superfície da cama ficava a uma altura tormentosa, consegui ver uma perna ossuda a enrolar-se no lençol, o som do colchão a aceitar a comodidade do corpo dele, respirações convulsivas a fazerem o registo da situação. Sentia uma mão húmida a sangrar, um fragmento de Nossa Senhora a iluminar a minha pele. Olhei para as minhas cuecas rotas, lassas entre as pernas, manchas magoadas de vermelho nas coxas. E depois havia aquela paz que escorre do silêncio, uma espécie de suspensão, vazio luminoso, talvez um caminhar à deriva pela própria consciência, uma sala povoada de imagens familiares, nunca felizes, como se algumas sementes de felicidade se transformassem em bagos venenosos, mas mesmo assim comestíveis. Ali estava o meu homem, estilhaçado de ódio sobre a cama, doente do seu tesão, a acumular-se de argumentos para a defesa dos seus próprios actos, provavelmente a delirar silenciosamente na cegueira das suas emoções. Possuía o rosto duro das pedras afiadas e impulsivas, um rosto que se apresentava como um depósito de explosivos. Nenhuma palavra como mensagem artificiosa, apenas o silêncio a servir de guarda-roupa ao meu sofrimento. Tentei erguer-me sem fazer ruído e gatinhei dorida até à porta do quarto. A sensação que tive foi como se desligasse o interruptor num aparelho onde passasse um fragmento incompreensível da minha vida. É incrível como a dor que sentimos nestes momentos só tem reais consequências com a autorização do tempo. É " ele " que nos faz consultar as folhas da nossa vida e nos obriga a pôr o destino em dia.
A CASA DA INFÂNCIA É UM TEATRO ABSURDO
E TODAS AS IMAGENS QUE DELA TRANSBORDAM
CONTRIBUEM PARA A MONSTRUOSIDADE DA NOSSA VIDA ADULTA
PISAR OS OUTROS É MASSACRARMO-NOS
COM AS NOSSAS ANGÚSTIAS E INFELICIDADES
Gosto tanto de me sentir em silêncio. Esquecer que tenho alguém que mexe no meu corpo. Por detrás destas paredes a vida não me interessa. Nunca vivi fora desta casa. O amor nunca me deu boas notícias. Às vezes comporto-me conforme os ensinamentos adulterados de quem me ama. Estou sempre a ensaiar a minha vez de agir, talvez o erro esteja na má aprendizagem que eu faço na relação com os outros. Provavelmente escolho mal as pessoas. Ou as minhas palavras, a forma como as sinto, não fazem boa decoração sentimental. Há tantos retratos, ao longo da minha existência, tão mal tirados, onde me sinto asfixiada pelo inesperado do que me está a acontecer. Quem me ama põe a bala; e quem me odeia dispara. Tudo a mesma pessoa. Aprendi a colocar o alvo de forma a sobreviver. Sinto uma paz muito grande. Faz-me lembrar aquelas mulheres que deixam ficar o lixo no chão, e depois ignoram-no, pisam-no, arrastam-no enquanto caminham, e no limite do seu desespero, transformam-se no lixo que produzem. É uma espécie de ambiente protector. O meu lixo são estas imagens. Estou sempre a colar novos sentimentos aos dias que passam, e a renovar o álbum dos acontecimentos frustrados.
Falar de sexo durante o dia faz aumentar o entusiasmo de uma noite bem esquematizada sensualmente, ou, pelo contrário, a insistência no assunto criará expectativas que se revelarão inúteis no acto sexual? Desenvolver com a cumplicidade do parceiro um argumento e/ou alinhamento de desejos e performances a pôr em prática posteriormente não será uma forma de constrangimento emocional que poderá resultar em fracasso? A M detestava que o companheiro andasse sempre de roda dela a apalpar-lhe o rabo e a segredar-lhe combinações de actos e posições que ela deveria adoptar enquanto faziam amor. Na ideia de M, o insistente companheiro já fazia sexo com ela mas num plano atemporal, isto é, ele desenvolvia um carácter sexual que não respeitava a hora e o local próprios para se satisfazer sexualmente. Não havia nele um reconhecimento de tempo e espaço onde os corpos se pudessem confrontar num duelo erotizante. Quando chegava a noite e o palco era a cama, já a peça estava mais que representada, e as combinações eróticas ficavam esquecidas não por força do desejo incontrolável, mas por um bloqueio patético resultante dos ensaios disparatados do companheiro. No sexo nada se repete, tudo se sente como se fosse a primeira vez. A M gostaria de ser surpreendida pela novidade e nunca pela repetição. Os melhores momentos sexuais que experimentara aconteceram tão naturalmente como se fechasse os olhos e os voltasse a abrir nun céu orgulhosamente orgástico. O sexo controlado roubava-lhe a impetuosidade e adormecia-lhe a vulva. Decididamente, a M não queria sentir a responsabilidade de actriz que tem de coordenar o corpo com a representação. Porque a M interiorizara desde sempre uma sexualidade cujo guião passaria desejosamente pelo mistério de ser possuída contra todas as regras impostas pela teatralidade animal do companheiro. Mas este também se esquecia do seu papel como actor, ignorava as deixas, e fodia como todos os homens.
O AMOR TEM UM SISTEMA DE PERDÃO QUE APENAS SE ESGOTA COM O TEMPO.
O TEMPO TAMBÉM POSSUI UM SISTEMA DE ESPERANÇA PARA AQUELES QUE NÃO SE SENTEM AMADOS.
ÀS VEZES O AMOR SÓ JÁ EXISTE NAS PALAVRAS QUE SE DIZEM COMO ENFEITE DAQUELE QUE JÁ NÃO SENTE. NA PRÁTICA É TUDO SUBTERRÂNEO, ÓDIO E LAMENTO.
AS FOTOGRAFIAS FUNCIONAM E REVELAM-SE MAIS EFICAZES
DEPOIS DE PASSAR MUITO TEMPO SOBRE NÓS.
SOMOS O TEMPO FOTOGRÁFICO.
Interior, noite. Quarto escuro. Um silêncio como uma dor, a incidir tanto no homem como na mulher, um silêncio ruidoso a concentrar-se nos dois pensamentos, a desfazer qualquer diálogo.
MULHER - O que ela poderia dizer está dentro do seu coração. Uma mulher passiva e submissa, que raramente dispõe de argumentos para se afirmar numa situação degradante, só pode contribuir para a construção de um homem perverso e imoral.
HOMEM - O homem tem necessidade de sentir na mulher uma força que entre em confronto com o seu poder. É sobretudo a frustração de não encontrar na mulher um obstáculo controlador e autoritário que faz aumentar no homem a sua qualidade agressiva. O homem sempre exerceu sobre a mulher um falso poder.
MULHER - A relação com o homem é um trabalho delicado. A mulher nunca sabe quando está a ser correctamente interpretada nas suas funções conjugais, sendo obrigada a viver no fio da incerteza e a recorrer a um injustificado aprofundamento das suas intenções elementares, contactos emocionais que pela sua natureza são primários, o que altera toda a espontaneidade dos seus actos.
HOMEM - O silêncio criou no homem um isolamento passivo, contraditório no seu modo natural. Deitado na cama, a sua postura é artificial e a imobilidade persistente está muito próxima da loucura. Afinal, tudo não passa de uma encenação que o seu pensamento delicadamente representa, contribuindo para que se sinta tranquilo e inocente perante si mesmo.
MULHER - Ainda hoje existem mulheres que aceitam com sacrifício e resignação o amor dos seus companheiros. Todas as mulheres escondem no mais fundo das suas vidas pelo menos uma humilhante passagem por um acto sexual totalmente em desacordo com os seus desejos.
HOMEM - Existe no homem agressivo uma espécie de teatralidade interior que o imuniza face à incorrecção do seu comportamento.
MULHER - O amor da mulher pelo homem manifesta-se na renúncia do seu próprio poder. Se observarmos, num acto de amor, a imagem de um homem abraçado a uma mulher, claramente identificamos na figura feminina um sentimento de desespero. É este desespero que responsabiliza o homem perante a mulher. O desespero é a única verdade que permanece numa relação de amor.
Interior, noite. Sala de jantar. Um homem e uma mulher sentados à mesa, fim de refeição. Mãos dadas, suavidade no tacto e repulsa no sentimento. Concentração e fingimento. Os olhos do homem nas mãos da mulher, voz angustiada.
HOMEM: Queres fazer amor esta noite?
( As mãos apertadas na palavra amor como se fosse uma ordem, uma corda a vedar a vontade e a dignidade da mulher, um beco sem saída. )
MULHER: Não me perguntes isso. Sabes que eu faço sempre amor, de qualquer forma.
( As mãos sobre a toalha. Está a pensar se o homem se portou bem durante o dia, se merece ou não fazer amor com ela, pesa os desgostos, os momentos lúcidos e felizes, faz o balanço da felicidade. )
HOMEM: Nunca desejas fazer amor. A iniciativa parte sempre de mim. Como é que eu posso garantir se tens ou não desejo?
( Voz suave e compreensível. Análise numa lição de amor. Os olhos a arderem de censura, a incendiarem o receio de uma recusa. )
MULHER: Sabes que eu estou sempre pronta para ti. Não necessito de encenações. Gostaste do jantar?
( Desvio sentimental que implica uma fuga a si mesma. Sente-se encurralada e asfixiada, e mesmo assim o movimento das suas mãos dá-lhes um reflexo sensual, aperta as mãos do homem numa tentativa de libertação. )
HOMEM: Eu perguntei porque penso que nunca desejas fazer amor.
( Estável e compreensivo. )
MULHER: Porque me jogas para fora da tua vida. Porque durante o dia não sinto a tua boa imagem.
( Porque sentia que durante a noite os fios que faziam movimentar a sua vontade eram manipulados por ele. Obrigatoriamente. )
HOMEM: Que queres dizer com isso? Que imagem te dou durante o dia?
( Olha fixamente a mulher. Procura no olhar dela os negativos da sua imagem. Sente-se como se estivesse a ser acariciado por uma mão e a ser castigado por outra. )
MULHER: Explica-me tu o motivo, explica-me as regras do teu humor. Acho que não és sempre a mesma pessoa, e eu aprecio mais a pessoa que tu és menos, a que te exige maiores custos.
( A voz a despir a sala. )
HOMEM: É assim que tu gostas de fazer amor, apesar de tudo. Procuras sempre a minha maldade, o que eu possuo de violência.
( A imaginar um ataque projectado numa das paredes da sala. O seu lado negativo a afastar-se de si e a prender os braços da mulher, balançando-os violentamente contra a parede num jogo de sombras. )
MULHER: Tenho desgosto que penses assim a meu respeito. Não temos ninguém à nossa volta, ninguém poderá testemunhar os nossos erros. Não compreendo porque vivemos a defendermo-nos um do outro, como dois inimigos.
( E na parede havia a sombra dela, terrível como uma mancha sempre a alastrar e a fazer a sala escura. )
HOMEM: Não aprecio o teu silêncio. Talvez nunca tivesses dado valor à verdade das minhas emoções em relação a ti, nunca senti que pudesses ser uma espectadora atenta ao prazer que eu te reservo. Não é fácil pedir aquilo que a alma não tem para nos dar. E mesmo assim estou em dívida com o amor que me dispensas.
( A sala negra. Um som a arrastar coisas. Móveis. Corpos. Respirações. )
Tens necessidade de que eu seja a tua actriz? A puta da tua actriz que tu pões no palco da tua maluquice a sofrer todos os dias? Tu queres é ver-me a todo o instante representar um conjunto de erros só porque a tua mente mal formada faz um esforço incrível para melhorar os teus próprios sentimentos, porque de cada vez que pensas convenientemente, ficas desconfiado com a boa aceitação que eu possa ter ou não das tuas atitudes. Viver a dois implica olharmos mais para o outro do que para nós próprios, sabias? Quantas vezes me confrontei obsessivamente antes de dirigir-te uma palavra, e isso porquê? Por medo, Ibsen; agora utilizando uma imagem que tu tanto adoras: quantas vezes eu abri as pernas para ti, para me pôr à tua disposição, e tu, infantilmente ou por maldade para ver qual seria a minha reacção, tentaste anular o meu esforço e sacrifício de modo a rejeitares todas as boas intenções? Deveria ter percebido tudo pelas coisas que me dizias quando namorávamos. Nunca te achei normal, mas pensava que isso era poesia. O teu corte e costura quotidiano, utilizando as linhas da minha fraqueza, está fora de moda. Ou mudas a tua maneira de ser em relação a mim, ou mudas o palco dos teus tormentos para outro lugar.