abril 15, 2005

pranto de manteiga

Restava-me o cemitério.
«Tens as mãos tão frias» diz-me. Posso romper as malhas do tórax e largar o coração nas suas mãos, um bloco de gelo rachado. E as vértebras escangalhadas, mãe. Mãos de manteiga, dedos de manteiga por onde os dias escorregam e se estatelam pelo chão, pontapeados. Tens o meu sorriso, mãe. Eu roubei-te o sorriso, mãe, e tu sorris ainda mais.
Jazidas de perpétuas promessas, uma paz de caminhos pouco procurados. Percorro as filas dos mortos inutilmente glorificados pelos seus rostos de movimento aparente, a lamúria mortal daqueles que cá permanecem.


(Lia Sáile)

«Como consegues ter as mãos tão frias?», insiste. Se desencravar as unhas, puxo a carne e as veias azuis (sou um extraterrestre e ninguém acredita), o calor da terra tem o sabor da noite sem luzes, sou um palhaço enfeitado de Inverno só que não choro. As flores fogem-me do toque receando a geada ainda em Novembro disfarçado e eu que faço senão recolher a sombra, esconder a cabeça das memórias e vendar-me ao tempo?
Os túmulos cercam-me, encarceram-me junto com seus esqueletos assombrados e julgo ser um deles, ainda tão cedo agarrada à terra, julgo que as letras em breve se misturarão com as rosas cor de lodo ensanguentado, ainda tão cedo marcada pela cinza do lápis, julgo que os círios se alumiam e o sino destapa latidos fúnebres.
E eu tão fria como a mármore dos jazigos a julgar que vêm flores prantear-me o sono.

dina

Publicado por fernando esteves pinto em abril 15, 2005 02:46 PM
Comentários

Um abraço. Bom fim de semana!

Afixado por: Roxy em abril 15, 2005 04:12 PM

Tremendamente bem escrito, Dina. Também gosto da fotografia.

Afixado por: Andreia C. Faria em abril 16, 2005 01:40 PM