abril 12, 2005

autómatos

O parque de estacionamento como o compartimento superior do frigorífico, as luzes fluorescentes, as sombras gélidas das esquinas; o parque de estacionamento como o corredor vazio de hospital, filas intermináveis de macas
quase que, o cheiro do desinfectante;
o parque de estacionamento como o parque de estacionamento do supermercado, as inúmeras vigas de cimento, os compradores morosos de sábado à noite,
o meu pai também escrevia
as escadas rolantes, quadrados negros que se desfazem no cimo, as portas automáticas auto – máticas. Não precisamos movimentar as pernas ou estender a mão – porque haveríamos se é tudo a-u-t-o mático? Amanhã, comprar as necessidades bidimensionais pelo computador, nem mover as mãos no volante, nem andar uns metros da secção dos cosméticos à secção alimentar, nem abrir a garagem – Não! A garagem é AUTOMÁTICA – nem ter de encontrar pessoas indesejáveis, nem sair do casulo para não corrermos o risco de sermos violentados, nem ver o dia, nem respirar a noite, nem sentir o hoje – para quê se podemos encomendar tudo pela Internet?
Se, o ar condicionado?
Se, a vida pela televisão?
Se, o prazer comerciável?
Escreveria mesmo?


(Francisco Lopes)

Os aparelhos automáticos comandados pelo mundo a morrer de overdose, meter a moeda plastificada no carrinho, começar a corrida pelos preços, pelo tempo, pela satisfação pessoal,
o meu pai também escrevia, desenhava
produtos recomprados só pela oportunidade – aproveitar enquanto se pode – apesar de, despensas e sótãos abarrotados,
Apesar de, menos dia mais dia, tudo para o lixo,
os automáticos a exigirem a nossa atenção, as forças publicitárias que nos obrigam a mudar, seguir a moda, seguir a novidade, a tecnologia, a renovação
comprar, deitar fora, comprar, deitar fora, comprar, deitar fora, comprar deita fora,
porque, uma nova marca, um novo estilo, uma nova onda e já os peixes esmigalhados pela força do embate
Será que escrevia mesmo ou lia muito?
Os comprimidos que eliminam as horas gastas no alcance da valorização - um sentido? -as pílulas multicoloridas, cada uma a curar-nos da sua porcaria, cada qual com o seu veneno e o seu antídoto. Um petisco para esquecer a insatisfação diária ao abraçar a noite, outro para assegurar o nosso retorno à doença – porque temos de acordar para voltarmos a dormir,
porque temos de avivar-nos para voltarmos a matar-nos,
Não será apenas outra mentira?
e as famílias de sábado à noite a conviverem com os produtos automáticos,
no amanhã, as famílias de sábado à noite como autómatos a imitarem os produtos automáticos,
e os adultos a automatizarem as crianças, a infância perdida em cada um de nós.

dina

Publicado por fernando esteves pinto em abril 12, 2005 11:02 PM
Comentários

Lindíssimo texto! E fica deslumbrante com a ilustração.

Afixado por: Elvira em abril 14, 2005 02:38 PM

Encantada. Bom fim-de-semana.

Afixado por: Ofeliazinha em abril 15, 2005 12:27 PM