1. As tuas primeiras histórias têm um carácter informativo, isto é, funcionam como pequenas notícias que se podem ler nas páginas dum jornal diário. São breves apontamentos do quotidiano. Mas existe uma particularidade nestas histórias: são “contadas” a partir do seu interior de forma a humanizá-las. Queres comentar?
L N - As pequenas histórias, no seu todo, foram imaginadas como entradas de um diário. Não contam os meus dias, no entanto, mas o que me impressionou por esses dias, de uma forma ficcional. O que despertou essas histórias pode ter sido algo que vi, que li, que escutei, e que de alguma forma completei, dando corpo aos sentimentos despertados. Em muitos casos ainda me lembro, ao lê-las, o que as acordou. Nalguns casos transformei mesmo pequenas notícias dos jornais, normalmente dando conta de crimes, contando o que elas não contavam, o que estava por detrás dos crimes, ou no interior deles, se preferires.
[802. O que se pode dizer com meia dúzia de palavras? Muito, mesmo muito, muito mais do que se imagina. Basta calar bem fundo em nós a arrogância de tudo explicar.]
2. As personagens das tuas histórias possuem uma lucidez brilhante. São seres que escapam ao desespero com que a vida pretende envolvê-los. Parece que dominam o destino (ou desfecho) que o autor lhes quer dar. Será que são as personagens a escrever as histórias, ou é a história a escrever a personagem?
L N - As personagens sempre fogem ao autor e escrevem a sua história, de certa maneira, talvez da mesma forma que um fotógrafo depende em grande medida dos objectos fotografados. E depois há o leitor, a quem tento deixar sempre a liberdade de construir a sua própria história. Depois, as personagens participam ainda do que é a própria natureza libertadora da ficção, essa lucidez que nos permite verdadeiros lampejos de ordem no caos. Por último, ainda me ocorre dizer que, tal como as personagens, também nós nos reconstruímos através da ficção que é o constante contar da nossa vida.
[807. Todos os dias, pela manhã, escrevia uma pequena história. Na verdade, nem todos os dias, agora que penso nisso, e nem sempre pela manhã, e muitas vezes duvidava que de uma história se tratasse. E assim estraguei um bom início e cheguei rapidamente ao fim.]
3. Não se pode passar pela tua escrita sem sentir uma ironia subtil que se esbate no domínio das coisas graves da existência. Isso é o teu olhar irónico sobre os outros, ou a tua preocupação em levantar questões para as quais os outros ainda não se detiveram no decorrer das suas vidas?
L N - Quando se descobre que a dualidade é uma construção frágil e que a realidade ama os paradoxos, a única forma de nos mantermos lúcidos é sorrir, ou mesmo rir à gargalhada. E se assim é, só se pode falar da realidade, só se pode interrogar a vida, de uma forma que aceite e tente integrar esse insólito. Sempre achei delicioso que sobre tantas coisas se possa dizer uma coisa e o seu contrário, e parecer ao mesmo tempo certo e errado de uma e outra vez. É esta sensação que as questões nos escorrem como água pelas mãos que me acontece a maior parte da vezes, quando me interrogo e interrogo a vida, mas não me entristeço, pelos menos não muito, penso sim que as mão ficaram lavadas, por assim dizer. Por outro lado, a intenção e o formato confundem-se nas pequenas histórias, não quero dar respostas, não o conseguiria nunca, quero apenas levantar questões, ou tão só o seu reconhecimento pelo leitor. As pequenas histórias são fogachos de luz, beliscões, querem abanar o leitor, deixá-lo perplexo, ainda que por instantes.
[808. Sentiu-se obnóxio, completamente obnóxio, e de nada lhe adiantou desconhecer o significado da palavra.]
4. Tu sabes que escrever é construir um espaço perante os outros. No teu caso (e estas histórias também te representam), a ideia que se tem é que tudo o que apontas ao leitor como breve e intenso é uma felicidade. Sem margem para o sofrimento. Escreve numa só frase a história da tua felicidade.
L N - Não te vou dizer que não acredito na felicidade, posso com facilidade pensá-la como êxtase ou como equilíbrio, mas no dia a dia não concebo a felicidade sem a infelicidade, uma nasce da outra, imbricadas sem apelo nem agravo. Muitas vezes é isso que tento transmitir ao leitor, que na infelicidade podemos sentir felicidade e o contrário. Para mim isso é a coragem, e cada vez precisamos mais dela, essa coragem de ver, de aceitar, de agir e de lutar apesar de tudo, principalmente apesar do medo e da desorientação. A minha felicidade seria nunca pensar na felicidade.
[809. Foram felizes para sempre, é verdade, mas muito aconteceu até que aí chegaram vindos de era uma vez.]
5. Verifico que em algumas histórias de amor existe nas personagens um sentimento de perda e incapacidade ou resignação. São romances tristes e quase se sente que não há esperança para o amor. Será o amor assim tão breve na vida das pessoas que não valha uma história de esperança?
L N - Temos de saber aceitar, tanto quanto temos de saber negar. Quanto ao amor, essa é talvez a única esperança que nos resta, acreditar que ele sempre renasce, que afinal nunca morre. Mais uma vez a alegria surge da tristeza e esta daquela. Compreendo que se morra de amor, mas essa é a forma mais eficaz de o matar de vez. É um lugar comum que o amor é eterno enquanto existe, e eu gosto de lugares comuns, pois revelam mais do que escondem.
[816 Depois que ela o abandonou ele julgou morrer, tanto sentiu a sua falta. Muito mais tarde admirou-se por amá-la ainda, e sentiu-se feliz. O seu amor era só seu, ela não o tinha levado consigo.]
6. Em que história, das mil e uma, podemos encontrar o homem que escreveu o livro?
L N - Acho que em todas me podem encontrar e em todas me podem perder. Acredito que embora permaneça naquilo que escrevo também já lá não estou. Assim, por exemplo, embora possa falar delas, não considero que possa falar melhor delas do que qualquer leitor. Claro que sei quando foram escritas e em que circunstâncias, isto se não me esqueci entretanto ou me confundi, mas espero das histórias que escrevo que sejam mais do que isso.
[819. Leu mais uma página, estranhando que aquelas palavras lhe fossem ao mesmo tempo tão familiares e tão desconhecidas. A verdade é que ele já não era aquele que as tinha escrito. As palavras não se oferecem a quem as escreve mas a quem as lê.]
Publicado por fernando esteves pinto em abril 5, 2005 10:48 AM
Buda hostil a Luis de Camões!?
"Erros meus, má Fortuna, Amor ardente
em minha perdição se conjuraram,
os Erros e Fortuna sobejaram
que para mim bastava Amor somente."
...
"Se para ti bastava Amor somente
amor em mim não chega para nada
pois preciso inventar o que hei-de amar
pensando que é a vida que o inventa
já que juntos nós vamos percorrendo
um tempo que também é irreal
o não ser do que é tudo a mim me anima
me recria no espaço que não há
não haver nada é tudo por que anseio
para me erguer não sendo o reteimar
que verdadeiro amor é mesmo amar
pois que nunca a ninguém apraz não ser."
...
Pois resumo mais simples e com alguma pontuação, Amigo Buda:
Mesmo convictos de que não há nada, jamais se perca em nós o dom de amar.
Eis a vida perfeita: Amar Amor
Agostinho da Silva
Parabéns! Ao Luís pelo livro, as histórias. Ao Fernando pela entrevista. Fico feliz. : )
Um abraço aos dois,
Silvia
Afixado por: silvia chueire em abril 7, 2005 07:22 AMQue grata surpresa passar por aqui, após tanto tempo, e cair logo numa interessante entrevista com esse interessante amigo português, e ainda entrecortada pelas suas interessantíssimas histórias! Sou um leitor faltoso, admito, passo longos períodos sem visitar o 1001... mas sempre que passo por lá, me surpreendo positivamente com o que o Luis tem conseguido fazer com o formato que escolheu.... ou foi o formato que escolheu o Luis?
Realmente, parabéns a ambos! :-)
Grande abraço, alysson
Afixado por: Alysson em abril 9, 2005 01:22 AM25 Maio/13 Junho 2005
O ANO DO GOLFINHO - A 75ª edição da Feira do Livro de Lisboa, - que terá lugar no habitual espaço do Parque Eduardo VII -, será palco para o Lançamento da obra intitulada "Na Cidade Secreta dos Golfinhos"; cuja acção se desenrola no Arquipélago dos Açores