maio 17, 2004

UM TEMPO MEMÓRIA

O pai surgia em casa constantemente numa posição enfraquecida. Mas toda a vulnerabilidade concentrada na sua inquietação depressa se transformava no pior dos desastres psicológicos que atingia a família. O pai trazia o mar para casa. Havia uma confusão de atitudes que ele próprio não conseguia controlar. Também como o mar, o tempo da sua vida passado no mar, o pai tinha um comportamento imprevisível. Um comportamento acentuado pelo desgaste vicioso da rotina que lhe impunha limites de fé e esperança. E eu via nele um desperdício de maré, qualquer coisa como um lixo a enrolar-se numa existência movediça, um destroço nocivo ao bom ambiente quotidiano. Talvez o pai pretendesse chamar a nossa atenção para o facto de não ter trabalho nos dias em que a má vontade da natureza se impunha como uma força de escárnio contra a necessidade de um homem se governar. Porque as artes de pescador do pai davam-me a ideia de que ele, para trazer a vida ganha para casa, teria de mamar como uma criança nas tetas da natureza selvagem e rebelde. O rosto triste do pai, o seu olhar projectado numa distância de água, eram a imagem de alguém cativo numa rede de mágoas e frustrações. É assim que eu ainda o vejo: uma jovem tristeza insistente como uma luz húmida e inquieta a esvoaçar num riso de miséria em toda a extensão do seu rosto. Junto à janela, como se representasse para nós apenas um esboço da sua fatalidade, e numa impiedosa demonstração da sua turbulência sentimental, o corpo do pai agita-se numa convulsão de choro, um som de desespero a decompor-se como uma vaga de encontro à parede numa infinidade de sensações esquizóides, o corpo no chão a fechar-se subjugado por uma força demoníaca e sem controlo, a enrolar-se sobre si numa congestão emocional assustadora. Parecia que toda a infelicidade acumulada durante tempos lhe havia posto nas mãos uma estranha arma para ele combater o desassossego que lhe corrompia a mente.
Nada acontecia harmoniosamente, mesmo seguindo as leis excepcionais da vida. Raramente alguma cena familiar alcançava um final feliz. Todos os instrumentos de sobrevivência que mantinham a funcionar o lar estavam irremediavelmente viciados. Os dias nasciam defeituosos ou com elevados níveis de dificuldade. Sentia-se o tempo como uma doença endémica. Quase não se desejava o dia seguinte por medo da sua permanência destrutiva. Desconfiava-se dos indícios de prazer que alguma fracção de tempo nos oferecia. Uma saborosa refeição, quando era caso disso, era consumida num ambiente de austera satisfação. Depois do incêndio na casa, a felicidade que sentíamos nos raros momentos da vida era mesmo uma arma controladora e vigilante. Ninguém se atrevia a manifestar um rasgo de excessiva alegria. O tempo era a balança que equilibrava e media a intensidade emocional de cada um de nós. O tempo memória que se elevava numa demonstração de que nada estava esquecido. Um tempo demolidor sempre a disparar imagens sobre imagens como uma máquina fotográfica incessante. Um tempo inválido e doentio para o pai, sempre a fazê-lo sentir-se num presente estagnado.

Publicado por fernando esteves pinto em maio 17, 2004 02:15 PM
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Afixado por: Pocket Bikes em junho 17, 2004 06:57 AM